Crianças brincam no recreio. Elas jogam cabeças, pulam corda com tripas humanas e deitam em poças de sangue. Em "O sorveteiro", já nos cinemas, quem consome os sorvetes do personagem-título entra em um transe psicótico e comete assassinatos em massa.
Lançado em agosto nos Estados Unidos, o filme de Eli Roth foi detonado pelo uso da violência extrema e da inteligência artificial - ele afirma que a tecnologia o ajudou a contornar o baixo orçamento, já que estúdios renomados recusaram o projeto.
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Não é a primeira vez que o diretor de "O albergue" flerta com o exagero - em 2023, ele uniu horror e humor em "Feriado sangrento". No longa, um "slasher" sobre um assassino mascarado, ele ri do consumismo ao tornar uma Black Friday num massacre generalizado.
Há quem diga que longas do tipo se resumem ao sangue gratuito. Outros os veem como uma maneira de rever o que é considerado aceitável. Para Roth, a ideia é divertir a plateia com o absurdo, mesmo quando as risadas são involuntárias.
Filmes como "O sorveteiro" existem há décadas, mas eles têm ganhado espaço nos últimos tempos. Embora o escárnio ande de mãos dadas com títulos independentes - o palhaço de "Terrifier", por exemplo, arrecadou dezenas de vezes o orçamento dos três filmes da saga -, a estratégia tem alcançado prêmios e grandes estúdios.
Em 2024, as transformações corporais de "A substância" arrancaram gargalhadas, e o filme chegou ao Oscar por debater o etarismo e pressões estéticas. Um ano depois, a Warner fez o público morrer de rir com o fim de "A hora do mal", apesar do tom sombrio da trama.
Na cena, a bruxa Gladys é perseguida por crianças. Elas quebram janelas, invadem casas e fazem de tudo para desmembrar o seu corpo. Após viralizar, a sequência inspirou a esquete de abertura do último Oscar.
Outra safra que segue divertindo é a dos animais mortais - recentemente, os ataques vieram de macacos, aranhas e até de um bicho-preguiça. Ainda que histórias absurdas cruzem linhas tênues, cabe diferenciar esses filmes do "terrir", subgênero que parodia códigos do terror e costuma ser mais ameno.
Longe da franquia "Todo mundo em pânico", o pesquisador Carlos Primati cita Ivan Cardoso, que ironizou clichês de monstros como a Múmia com a rebeldia do cinema marginal. São filmes que se diferenciam, explica Primati, dos de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que encarava dilemas existenciais em um Brasil ditatorial.
Ainda assim, os visuais amadores e os exageros do personagem tiram várias risadas. Em casos grotescos, diz o cineasta Steven Kostanski, o riso surge como uma defesa contra o choque.
Já para Wheeler Winston Dixon, professor emérito da Universidade de Nebraska-Lincoln que estudou a história do horror e a comédia sombria do cinema de 1960, quem ri dessas cenas "morreu por dentro". Ele cita as críticas sociais de "A substância" e coloca o filme entre os poucos de terror que o agradaram nos últimos anos.
Kostanski, por sua vez, afirma que nem tudo precisa oferecer lições de moral. "Não sinto prazer com a dor alheia. Só estou rindo da insanidade das cenas", adiciona ele, especialista em efeitos "gore", que mostram órgãos expostos e outros elementos explícitos.
Suas obras emulam longas infantojuvenis da década de 1980, mas põem a inocência desses títulos e a violência em rota de colisão. Em "Manborg", por exemplo, um soldado enfrenta demônios em lutas dignas do game "Mortal Kombat". Já "Goreman" segue um alienígena sociopata, forçado a obedecer a uma menina de oito anos.
"Buddy", longa de Casper Kelly recém-lançado no circuito americano, explora um contraste parecido - nele, o mascote de um programa distribui machadadas entre a criançada.
"O terror é um enorme guarda-chuva. Quando é cômico, pensa a violência de forma caricata. Em registros mais dramáticos, oferece cenas difíceis de se processar", afirma Paulo Biscaia, que trabalha o horror nos palcos e nas telas.
"De um jeito ou de outro, o gênero estabelece um pacto com quem vê - estamos num mundo lúdico, cuja violência extrema integra a trama". Fundador da produtora Vigor Mortis, ele joga sangue falso sobre espectadores e já levou peças para um necrotério.
Em seus filmes, a destruição de corpos se inspira em HQs. Em uma das obras mais famosas, "Morgue story: sangue, baiacu e quadrinhos", que surgiu no teatro e virou um longa, uma cartunista e um vendedor de seguros entram na mira de um médico legista.
Ele diz que o público atual se habituou a essas cenas, já que a violência é manchete diária. A lógica se aproxima da que provocou o declínio do Grand Guignol, teatro francês que encenava histórias violentas.
Em seu auge, nos anos 1920 e 1930, era celebrado pelo naturalismo das peças, que chocavam turistas com barbaridades convincentes. Na Segunda Guerra, porém, as cenas perderam impacto, incapazes de competir com o horror cotidiano.
O Grand Guignol fechou em 1962, e coube ao cinema continuar essas tramas. Na mesma década, longas como o francês "Os olhos sem rosto", em que um cirurgião refaz o rosto da filha com peles de mulheres alheias, e "Banquete de sangue", fenômeno em drive-ins americanos, mostraram que a violência servia igualmente a dramas psicológicos e filmes pipoca.
Com o tempo, diretores como Roger Corman e Dario Argento tornaram histórias de assassinos em transes lisérgicos, com imagens estilizadas, e abriram espaço para as mortes surreais, algumas mais cômicas do que outras, que seriam exploradas pela produtora independente Troma e por diretores como Tobe Hooper.
O último, aliás, se frustrou com a repercussão de seu "O massacre da serra elétrica", clássico de 1974 que é celebrado pela trama sombria em que jovens entram na mira de canibais. Segundo ele, poucos captaram o humor ácido do longa, tido por fãs como uma crítica aos Estados Unidos da época.
Passados 12 anos, ele lançou uma sequência escrachada, em que os antagonistas comandam uma marca de chili e o patriotismo de Reagan vira piada. No mesmo período, nomes como Sam Raimi, de "A morte do demônio", e Peter Jackson, de "O senhor dos anéis", se consolidaram com sangue e diversão - em "Fome animal", terceiro longa de Jackson, um jovem acolhe um bebê zumbi durante uma epidemia.
"O terror é um dos gêneros que melhor realça a criatividade e a habilidade humana", diz Kapel Furman. Em agosto, ele exibiu "Remanente - Voltagem" no Festival de Gramado. O longa em que paramédicos acordam um espírito maligno ampliou a pequena lista de filmes de terror já exibidos no evento.
Para Marcelo Miranda, pesquisador e curador do festival fantástico Djanho, sucessos como "Hereditário" e "Obsessão" explicam a aproximação entre o público e o grotesco.
"O terror passou a dialogar com pessoas não habituadas ao gênero. Elas são atraídas por questões como luto, vingança e repressão e encontram a violência gráfica. Não é que essas cenas se multiplicaram".
Ele reforça o horror como um gênero de fortes reações físicas, sujeitas à individualidade. "Não é possível associar uma obra a um gênero só pelas reações. Um gênero cinematográfico é definido por códigos que se repetem, não pelas sensações que provoca".
Sobre discussões morais levantadas por filmes como "O sorveteiro", Miranda ainda diz que o "true crime" dificulta a leitura de obras puramente fictícias. "A violência só é aceitável na ficção. Não vemos pessoas sendo realmente destruídas. São autores criando cenas insólitas e desconfortáveis. Não creio em limites da ficção, mas em limites da criação. Cada criador firma seus limites, banca suas ideias e deve ter em mente a repercussão que pode causar".
Dono da Witchcraft, que produz longas de terror e documentários criminais, Rod Blackhurst diz que penou para lançar "Dolly", que chegou ao Brasil em maio e ficou pouco tempo em cartaz.
Na trama, uma mulher é sequestrada por um ser mascarado, e juntos vivem uma dinâmica doentia de mãe e filha. Entre orelhas arrancadas e outros ataques, o diretor descreve sessões com gargalhadas, especialmente nas cenas em que a vítima imita um bebê para sobreviver.
Ele compara o filme com títulos de "true crime" que lançou no streaming. "Dolly é uma figura extrema, que só conhece a dor. A violência do filme é justificada pelas ações e reações dos personagens", explica.
"Tragédias reais me deixam mais desconfortável do que a violência fictícia. Nunca entendi o argumento de que filmes e jogos violentos podem levar alguém a ser violento".
Blackhurst e o diretor Steve Kostanski citam filmes de "torture porn", em que a tortura de personagens é o centro da trama, como obras que não querem reproduzir. Eles citam o sérvio "Terror Ssm limites", em que um ator pornô investe em cenas de pedofilia e necrofilia, e há quem atribua o termo às obras de Eli Roth.
Outra crítica recorrente a filmes violentos é o estigma contra corpos femininos. No livro "Men, women, and chain saws", Carol J. Clover diz que mortes femininas costumam ser mais detalhadas que as masculinas.
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A estudiosa e diretora Xanthe Pajarillo reforça a ideia. "Mulheres são submetidas a mais traumas nesses filmes. Não precisamos parar de exibir essa violência - tudo depende de como ela é retratada".
