Nos 14 anos (1981-1995) de seu governo, o presidente francês François Mitterrand (1916-1996) mudou radicalmente o cenário de Paris. Seu legado inclui a Pirâmide do Louvre, a Ópera da Bastilha, o Instituto do Mundo Árabe e a Grande Biblioteca. Com estreia nesta quinta-feira (3/9), no Cine Ponteio, “O Grande Arco de Paris” acompanha a construção do Grande Arco de La Défense, outra realização de Mitterrand.
Mas não é o presidente socialista, tampouco o monumento de 112 metros de altura, o cerne do filme de Stéphane Demoustier. Entre a comédia e o drama, e apoiado por um grande elenco, o diretor e roteirista acompanha a trajetória de um dinamarquês, Otto von Spreckelsen (1929-1987). Ilustre desconhecido, ele venceu o concurso francês para a realização do projeto na região de La Défense.
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Spreckelsen tinha 53 anos e era professor de arquitetura em Copenhague quando tirou o primeiro lugar, em 1983, na competição internacional. São basicamente estas informações que o próprio Mitterrand (Michel Fau) recebe de sua equipe, quando é anunciado o vencedor.
O responsável pelo projeto, Jean-Louis Subilon (Xavier Dolan), tem que se virar para descobrir quem é o vencedor. O início da trama tem clima de comédia de erros, com o burocrata Subilon suando para se safar de uma situação incomum.
O arquiteto (vivido por Claes Bang, que ganhou o mundo como o protagonista de “The Square – A arte da discórdia”) é finalmente encontrado – pescando com a mulher, Liv (Sidse Babett Knudsen, a primeira-ministra Birgitte Nyborg, da série “Borgen”).
Inovação
O casal vai para Paris e Spreckelsen, com suas ideias inovadoras e humanistas, cai nas graças de Mitterrand. Mas, ao longo dos três anos de trabalho, teve que enfrentar restrições técnicas, pressões políticas e conflitos de interesse. Trabalha ao lado do arquiteto francês Paul Andreu (Swann Arlaud), seu gerente de obra.
“O cubo (ele nunca chamou a obra de arco) é o trabalho da minha vida”, Spreckelsen não se cansa de dizer, quando assiste a seu projeto ser, pouco a pouco, modificado. O tom leve muda na segunda metade do filme, quando a obsessão do arquiteto, o próprio ego dele e as dificuldades enfrentadas tomam outra proporção.
“Sempre prefiro o fracasso ao triunfo. Gosto mais também dos anti-heróis, de personagens que fazem as escolhas erradas. Prefiro isso ao triunfo absoluto. Mas o arco existe, precisamos ter isso em mente. Então (o projeto de Spreckelsen) não foi um fracasso total”, afirma Stéphane Demoustier.
Xavier Dolan acrescenta: “Os azarões e as pessoas que fracassam são mais fáceis de gerar identificação. Mesmo quando se fala de pessoas que triunfam ou de gênios – Oppenheimer, por exemplo –, é preciso mostrar como elas foram mal interpretadas e corrompidas”.
A história da obra e de seu criador é claramente uma opção do cineasta para falar de política. “Eu queria mostrar que tivemos um presidente que queria mudar a vida das pessoas realizando grandes obras urbanas. Cresci nos anos 1980, com a certeza de que a Europa se tornaria cada vez maior. Hoje, estamos longe dessa realidade, a Europa chegou a um beco sem saída, nossos políticos não têm visão.”
Público e privado
Para Demoustier, arquitetura não é uma questão apenas para especialistas. “O que define um edifício público ou um espaço privado é algo muito importante, mas deixou de ser um assunto em pauta. Acho que o filme pode abordar essas questões, temas que poderiam parecer um tanto abstratos, mas que se tornam muito concretos através da vida de Spreckelsen.”
Além do casal Spreckelson, vivido por atores dinamarqueses, outro não francês é o canadense Xavier Dolan. Alívio cômico do filme, Subilon é o único personagem ficcional do núcleo central da trama.
“Se fosse a história de um burocrata, eu teria adotado outra abordagem. Só que Subilon representa algo, não alguém específico. Então, ele não precisa estar preso à ideia que temos de burocracia. E o roteiro tinha nuances suficientes para que não houvesse a tentação de criar aquele tipo de figura rígida que vive dizendo ‘estamos atrasados’”, afirma o ator. “Acredito ainda que, naquela época, havia mais humanidade, mais respeito, mais visão e mais ambição na própria burocracia”, acrescenta.
A referência para Subilon não foi uma pessoal real, mas o servo interpretado por Christian Clavier em “Os visitantes: Eles não nasceram ontem!” (1993), uma das comédias de maior sucesso do cinema francês.
Para Demoustier, a mudança de tom em “O grande arco de Paris” é coerente com a própria realidade. “O filme começa como um conto de fadas e termina como uma tragédia, porque a vida é assim. Acho que a vida é uma tragédia, pois todos nós morreremos no final. Mas há algo de cômico no nosso destino, pois tentamos dar o nosso melhor. Mas sempre caímos”, afirma.
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“O GRANDE ARCO DE PARIS”
(França/Dinamarca, 2025, 107 min.) Direção: Stéphane Demoustier. Com Claes Bang, Sidse Babett Knudsen, Xavier Dolan e Swann Arlaud. O filme estreia nesta quinta-feira (3/9), no Cine Ponteio (Sala 2, 14h e 18h30).
