Cinema

Documentário mostra Gonzaguinha de ‘coração na boca, peito aberto’

Filme de Susanna Lira premiado no Festival de Gramado, que estreia nesta quinta-feira (3/9) no cinema, enfatiza pensamento político do artista 

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Premiado como Melhor Documentário em Longa-metragem no Festival de Gramado deste ano, “Gonzaguinha - Da maior liberdade” estreia nesta quinta-feira (3/9) no circuito comercial. Dirigido por Susanna Lira, o filme traça um perfil íntimo e, ao mesmo tempo, público do artista – sobretudo na esfera política – por meio de muitos materiais de arquivo.

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Há também no longa uma sequência dramatizada, que condensa duas entrevistas dadas por Gonzaguinha (1945-1991) ao “Pasquim”, no início dos anos 1980. Não há no documentário uma preocupação com a biografia cronológica do artista.



Há passagens falando de sua infância no morro de São Carlos, no Estácio de Sá, com os pais adotivos, e também, de forma pontual, do desenvolvimento de sua trajetória artística, mas o foco é o pensamento de Gonzaguinha – o que está em cena são suas ideias e a conexão que elas têm com as músicas que compôs.



Nesse sentido, o filme não se ocupa dos grandes sucessos, mas sim de canções – muitos lados B – que revelam a alma do artista. Nesse ponto é que “Gonzaguinha - Da maior liberdade” é mais político, ao mostrar como sua criação se inseria no contexto do regime militar.



Ele teve 52 músicas censuradas, mas nunca se furtou a dizer o que pensava da ditadura e da sociedade daquela época – na passagem dos anos 1970 para os 1980, especialmente. O âmbito íntimo, emocional, é revelado por meio da relação do músico com seu pai biológico, Luiz Gonzaga, e da forma como ele, que era chamado de “cantor rancor”, foi adquirindo, com o passar dos anos, certa doçura.



MOMENTO POLÍTICO


Susanna Lira revela que a gênese de “Gonzaguinha - Da maior liberdade” remonta a “Clara estrela”, documentário sobre Clara Nunes que lançou em 2017, com roteiro e codireção de Rodrigo Alzuguir.



“Começamos a conversar, eu e Rodrigo, sobre com que outros artistas gostaríamos de trabalhar. Fizemos uma lista de nomes para pesquisar e um deles era Gonzaguinha. Batemos o martelo, muito em função do momento político atual, pensando que a obra dele poderia vir nos iluminar de alguma forma”, diz.



Ela chama a atenção para o fato de que sua filmografia traz muitos títulos que tratam do período da ditadura no Brasil e outros tantos que se ancoram no pensamento crítico de determinadas personalidades. A diretora explica que Gonzaguinha conjuga essas duas possibilidades.



“A ideia era, com garimpagem de arquivo, colocar esse artista em primeira pessoa. Ele, como músico, foi um documentarista do Brasil. Queríamos trazer isso para dentro do filme e foi o que fez a diferença nesse nosso garimpo”, afirma.



As imagens de arquivo focalizam Gonzaguinha durante shows e entrevistas, mas também oferecem um panorama do país nas décadas de 1970 e 1980, com militares marchando com seus coturnos, por um lado, e meninos brincando descalços na rua, por outro.



Num dado momento, Gonzaguinha fala de sua infância, quando o “guri desceu o São Carlos” – como canta na música “Com a perna no mundo”. Na parte encenada, ele é perguntado até quando ficou na rua, e responde: “Até hoje, eu continuo na rua”.



TRANSPOSIÇÃO DE ENTREVISTA


Susanna prefere chamar a parte dramatizada – em que o ator André Dale interpreta Gonzaguinha – de uma “transposição”. “Não tínhamos áudio nem imagem dessas duas entrevistas que ele deu para o 'Pasquim', que foram muito importantes, porque ele estava falando tudo aquilo ainda no período da ditadura. Queríamos mostrar a eloquência dele”, diz.



“Não tem nenhuma palavra dita no filme que não tenha sido dita por Gonzaguinha. André Dale não tenta imitá-lo, mas trazer a verve dele”, pontua.



Para a diretora, o mais cativante em Gonzaguinha é sua coragem e ousadia, atributos que ela própria diz querer cultivar para continuar fazendo cinema. “É uma fonte de inspiração em que quero beber sempre”, comenta.



“Hoje em dia, as pessoas fazem muitas concessões para serem aceitas. Gonzaguinha sabia que podia ser censurado, mas teve coragem para enfrentar o regime, o que acho que falta para os artistas brasileiros de agora, que estão mais preocupados com engajamento e likes. Ele não fazia música para agradar.”



Além do Kikito no Festival de Gramado, o longa foi premiado no Los Angeles Brazilian Film Festival e selecionado para diversos outros festivais. A diretora comenta que o filme poderia cumprir um circuito internacional antes de estrear no Brasil, mas o momento determinou que chegasse às telas do país antes.



“Quisemos lançar agora, em setembro, às vésperas de uma eleição tão importante, para que as pessoas possam pensar o país a partir do que esses arquivos mostram.”



CARINHOSO E AGRESSIVO


No documentário de Susanna Lira, Gonzaguinha recorda que, durante uma apresentação em um festival universitário, em 1969, nasceu, em função de algumas vaias, “aquela imagem do cara fechado, do cara antipático, o que, realmente, eu também sou”. Em outra passagem, ele assume que tem um “olhar duro”, que, no palco, acabava tolhendo os músicos e, em casa, assustava seu filho Daniel. Foi essa percepção, ele diz, que o fez começar a adotar uma postura mais serena. “Estou aprendendo sobre minha pessoa e quero continuar aprendendo sobre minha pessoa, para poder chegar mais a outras pessoas”, afirma. Em outro momento, sintetiza seu percurso: “Hoje o Gonzaguinha carinhoso que eu sempre fui está unido ao Gonzaguinha agressivo que eu sempre fui; são a mesma pessoa”

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“GONZAGUINHA - DA MAIOR LIBERDADE”
(Brasil, 2026, 78 min.). Direção: Susanna Lira. Estreia nesta quinta-feira (3/9), no Cine Belas Artes (Sala 3, 16h40).


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