Em 1994, Maria Adelaide Amaral viu seu texto "Querida mamãe" ser montado pela primeira vez por José Wilker (1944-2014), com Eva Wilma (1933-2021) e Eliane Giardini vivendo mãe e filha em conflito, desfiando amor e pequenos ódios cotidianos. O espetáculo ganhou os prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Shell e Molière. Agora, passadas três décadas, a peça ganha nova montagem. Dessa vez, com Nívea Maria e Regiane Alves, sob direção de Pedro Neschling.
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Com apresentações nesta terça-feira e quarta-feira (1º e 2/9), no Teatro Feluma, dentro do Festival de Teatros Seguros Unimed, o texto de Maria Adelaide Amaral se mantém atual por trazer à tona temas que continuam presentes na realidade de diversas famílias, como preconceito, diferenças geracionais e dificuldades dos mais velhos em compreender os mais jovens.
Nívea é Ruth, viúva, empenhada em manter sua serenidade. Valoriza hábitos cotidianos e rotina tradicional. Orgulha-se de gostar de "arrumar os armários e conversar com as mulheres sobre suas crianças", como diz. Contudo, tem grande dificuldade em aceitar mudanças geracionais. Entre elas, o fato de a filha Helô (vivida por Regiane Alves) se apaixonar por outra mulher. Para Ruth, isso não passa "de uma fase".
Helô, por sua vez, tem dificuldade de enxergar a mãe para além do aspecto materno. Médica dedicada, obstinada pelo trabalho e divorciada, ela vive tão absorta e concentrada nos próprios dilemas pessoais, profissionais e amorosos que, de início, não consegue perceber a fragilidade física e os problemas de saúde de Ruth. Não fosse o suficiente, repete o ciclo de distanciamento familiar ao enfrentar uma relação difícil e desgastada com a própria filha.
"É uma peça sobre conflitos geracionais, mas é também uma peça que fala um pouco sobre a finitude", diz Regiane. "Às vezes, nas nossas relações, a gente defende tanto alguma coisa a ponto de viver conflitos, mas acaba se esquecendo que a vida acaba. É justamente isso que a mãe quer mostrar para a Helô."
A alta carga dramática de "Querida mamãe" fez com que as duas atrizes desabassem em lágrimas durante os ensaios. Elas tiveram que acessar aspectos da própria vida que as confrontavam com a maneira como se relacionaram com suas respectivas mães e como lidam com os filhos.
"É muito sentimento misturado", ressalta Regiane. "Costumo falar que o teatro é uma grande terapia. Você tem que trabalhar coisas dentro de si mesmo, porque você oferece isso para o seu personagem."
Cadeiras e cortinas
A própria encenação transforma o ato de revelar o que estava escondido em elemento visual. Assinado por Beli Araújo, o cenário é propositalmente despojado, com duas cadeiras e cortinas, sem a tentativa de reproduzir realisticamente uma casa. As duas personagens permanecem com o mesmo figurino durante todo o espetáculo, de modo que a simplicidade seja uma escolha do diretor para concentrar a atenção na palavra e no trabalho das atrizes.
As cortinas, no entanto, se movimentam. À medida que mãe e filha avançam pelo embate, as próprias atrizes suspendem uma a uma as estruturas que cercam o palco. É como se isso marcasse a passagem do tempo ao mesmo tempo em que significa a retirada das camadas de sujeira acumuladas no passado. Conforme segredos, ressentimentos e mágoas vêm à tona, o espaço se revela progressivamente mais limpo, até que todas as cortinas estejam erguidas no fim.
"No fim, a gente descobre o amor", diz Nívea. Aos 79 anos, 50 deles dedicados aos trabalhos na TV, ela tem personalidade completamente diferente da personagem que interpreta. Para começar, faz questão de ressaltar que dividir palco com uma atriz 30 anos mais jovem, sob a direção de um homem 35 anos mais novo, é um processo de aprendizagem.
"O Pedro foi direcionando esse espetáculo de forma que trouxe tudo como que num leque aberto para o público ficar à vontade para escolher com quem quer concordar", elogia.
Ao contrário da personagem que interpreta, ela sempre foi mais progressista. Vinda de família tradicional de classe média alta, onde a carreira artística não era bem-vista, lutou muito para conquistar seu espaço e superou diversas barreiras pessoais e profissionais.
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Viajar pelo Brasil em turnê, portanto, é uma forma encontrada de retribuir o sucesso que teve na carreira. "Tenho a responsabilidade de levar cultura para o nosso país, porque o Brasil tem pouco apoio neste setor. Acho que é um dever dos atores e atrizes, da classe artística em geral, levar cultura para os mais diferentes e distantes lugares do país", afirma.
