Série 'Habeas Corpus' é o primeiro drama jurídico nacional da Netflix
Em oito episódios, a novela trata das injustiças do sistema, trazendo Marjorie Estiano como a estrela da produção
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Duas novelas sobre o Judiciário estão no ar no Brasil. A da vida real, que está rolando desde o fim de 2025, é o maior escândalo da história do Supremo Tribunal Federal. Já a da ficção trata das injustiças do sistema numa instância muito menor. Com oito episódios, “Habeas Corpus”, recém-estreada, é o primeiro drama jurídico nacional da Netflix.
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“Acho que o timing não poderia ser melhor”, afirma Marjorie Estiano, estrela da produção. “A Justiça é estrutural na nossa sociedade, e ela precisa constantemente ser fiscalizada, atualizada e corrigida. (Na série) A gente vai ver polícia, delegacia, tribunal, penitenciária, faculdade. A história abrange a Justiça no Brasil pelas muitas etapas onde ela existe. Inclusive nas falhas.”
Criada por Luiz Villaça (também diretor-geral da série), Leonardo Moreira e Donna Oliveira, “Habeas Corpus” acompanha duas mulheres. Inez (Marjorie) passou a dar aulas de direito depois que sua carreira como advogada foi para o espaço. Ao ser baleada em pleno tribunal, ela abandonou a toga.
A outra personagem é Marina (Any Gabrielly). Aluna brilhante, ela se aproxima de Inez para tentar corrigir uma injustiça em sua família, algo que tem relação direta com o tiro que a advogada levou oito anos atrás. Seu objetivo é entrar para um grupo de revisão criminal que a professora criou para atuar no caso de Jonathan (Hypólito), homem condenado injustamente por duplo homicídio, de um idoso e sua diarista.
A trama tem muitos meandros e mistura debate de tribunal, melodrama e algum romance. Murilo (Vladimir Brichta), Pedro (Danton Mello) e Ana (Natália Lage), ex-sócios de Inez, estão defendendo a filha do idoso, que responde em liberdade a acusação de ser a mandante do crime. Em sua argumentação, eles reforçam a culpa de Jonathan. Além de antigo sócio, Murilo é ex-marido de Inez.
As relações perigosas seguem com os alunos escolhidos pela professora para fazer a revisão criminal. Bernardo (Felipe Ricca, filho de Adriana Esteves e Marco Ricca) é filho de Pedro, que não pode nem ver Inez pela frente. Os outros são Raquel (Luiza Gabus, filha de Tato Gabus Mendes, que faz uma participação como pai de Inez), namorada de Lima (Pedro Roza), com quem divide um apartamento. O grupo se completa com Kim (Nicolas Lee), descendente de sul-coreanos que não revela sua origem humilde, e a já citada Marina, que esconde absolutamente tudo do grupo, inclusive sua verdadeira identidade.
Ainda que sejam tramas distintas e que o tom seja absolutamente diferente, não dá para não pensar em “How to get away with murder” (2014-2020), o thriller de Shonda Rhimes capitaneado por Viola Davis durante seis temporadas. A personagem da atriz era também uma advogada e professora que criou um grupo com seus melhores alunos para atuar em casos criminais.
Perguntada sobre a coincidência, Marjorie é categórica. Não assistiu e pouco sabe da trama americana. “Fiz questão de não assistir porque não queria nenhum tipo de influência.” Já Any Gabrielly assistiu a série não uma, mas duas vezes. “Muito tempo atrás eu, muito jovem, tinha botado na cabeça que ia fazer alguma faculdade, que ia deixar ‘esse negócio de ser artista’, seria médica ou advogada. Comecei a assistir à série e fiquei viciada.”
A cantora e atriz de 23 anos, ex-integrante do grupo pop Now United, comemora sua primeira protagonista em uma produção adulta. “Devo muito da minha performance ao que a Marjorie me entregava em cena. Estar entre tantos ídolos foi uma oportunidade de observar constantemente”, diz Any, que realmente convence em cena – ao contrário de seus colegas jovens, com pouca intimidade com a câmera. Aqui, um spoiler que não compromete em nada.
A porção cantora de Any pode ser ouvida na interpretação de “Força estranha” (Caetano Veloso), que aparece no final de “Habeas Corpus”, na hora dos créditos. Para ela, participar de uma história que mostra a São Paulo quatrocentona, como também a da periferia, é uma oportunidade de sair da bolha. “A série mostra pessoas de vários lugares diferentes interagindo e tendo contato com outras realidades. A gente precisa expandir o nosso olhar para tudo. O jeito que você acredita que o sistema funciona pode ser só dentro do seu mundo. Talvez ele não seja igual para quem está do outro lado.”
Ainda que os casos apresentados na trama sejam ficcionais, houve uma relação próxima com o mundo real. Criada há 10 anos, a organização não governamental Innocence Project Brasil, que atua na tentativa de reversão de erros judiciários, contribuiu com a série. “O caso da 113 Sul (o assassinato do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral José Guilherme Villela, de sua mulher e da empregada do casal, em 2009, em Brasília) foi um dos casos que a gente se inspirou, mas é um deles”, conta Marjorie.
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Para a atriz, ter contato com os advogados que atuam como voluntários na ONG deu a dimensão da “vulnerabilidade e do abandono da população pobre” diante do estado. “A gente precisa de inspiração para voltar a ter confiança no sistema e acreditar que ele funciona. Foi fundamental conhecer essas pessoas (que atuam no Innocence) para entender que nem tudo está perdido. Pois esta é, às vezes, a sensação que a gente tem quando descobre tantas falhas diante da corrupção e da precariedade do sistema”, finaliza Marjorie.