TEATRO

Musical em BH revisita Era do Rádio com clássicos e história de traição

'Conduzindo Miss Martino' usa época histórica como ponto de partida para falar sobre memória, afeto e perda

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Em um período não especificado entre as décadas de 1930 e 1960, uma cantora de sucesso contrata um motorista para levá-la de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro. Ela vai se apresentar em uma grande rádio, mas, logo no início da viagem, recebe a notícia de que foi traída. A descoberta faz com que as músicas ouvidas no rádio do carro deixem de ser mero passatempo e se transformem no fio condutor emocional da personagem, que decide tomar uma decisão definitiva durante o percurso.

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Esse é o eixo central de “Conduzindo Miss Martino”, estreia de Leonardo Fernandes na direção de musicais. O espetáculo está em cartaz no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas nesta quinta e sexta-feira (4 e 5/9), às 20h.

Escrito por Lucas Vasconcellos e com direção musical de André Brant, regente residente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG), “Conduzindo Miss Martino” é mais do que uma homenagem à Era do Rádio. O espetáculo busca mostrar o impacto da música na vida das pessoas e o poder que ela tem de atravessar décadas mantendo a mesma força.

No palco, a soprano Fabíola Protzner interpreta Vitória de Martino, cantora que descobre a traição do companheiro às vésperas da viagem. Ela contrata o motorista Francisco Maria (papel do barítono Pedro Vianna), fã confesso da artista, mas que não a reconhece enquanto a conduz. Ao longo da viagem noturna, os dois ligam o rádio do carro e escutam as 10 canções mais requisitadas da época.

A relação entre eles se transforma aos poucos. Conversas, pequenos conflitos, descobertas e lembranças fazem com que o trajeto deixe de ser apenas uma viagem física para se tornar uma travessia interior. Francisco conta a Vitória o valor simbólico daquele carro, única herança deixada pelo pai, de quem guarda lembranças de carinho e saudade.

'Naquela mesa'

“Francisco começa, então, a cantar ‘Naquela mesa’”, adianta Fernandes, referindo-se à canção popularizada por Nelson Gonçalves (1919-1998). A música foi composta em 1969 pelo jornalista Sérgio Bittencourt (1941-1979) em homenagem ao pai, Jacob do Bandolim (1918-1969), morto pouco antes, repentinamente, vítima de um infarto.

“Passamos muito tempo escolhendo quais músicas levar para o espetáculo. Afinal, estamos tratando de um período relativamente longo, que foi muito frutífero para a música brasileira, com sucessos que marcaram nossos pais e continuam nos marcando até hoje. Mas, apesar de apresentarmos 12 músicas – são as 10 mais requisitadas e mais outras duas –, pensamos em selecionar aquelas que melhor se encaixam com os sentimentos e sensações que os personagens estão lidando naquele momento e que também tenham a ver com o tema da estrada”, diz o diretor.

Entre as escolhidas estão clássicos como “O mundo é um moinho”, de Cartola (1908-1980); “Mas que nada”, de Jorge Ben Jor; e “Estrada do sol”, de Tom Jobim (1927-1994) e Dolores Duran (1930-1959). As canções aparecem como números musicais, acompanhadas por uma pequena orquestra formada por instrumentos de corda, sopro e percussão, sob a batuta de André Brant.

“Tem hora que elas aparecem de maneira muito literal”, ressalta Leonardo. “‘Mas que nada’ é um exemplo. Os versos ‘Sai da minha frente que eu quero passar’ são justamente o que Vitória e Francisco gostariam de dizer naquele momento da viagem.”

Fernandes também assina a concepção do cenário. Um dos desafios foi levar ao palco um automóvel conversível fabricado em 1928, com mais de uma tonelada. Para suportar o peso do veículo, foi necessário reforçar a estrutura do palco com 22 escoras.

Apesar da presença do carro de época, o musical conta com poucos elementos cênicos, característica que também marca os cenários assinados por Fernandes, responsável pela cenografia de todas as peças que dirigiu. O mise-en-scène é complementado por projeções de vídeo ao fundo.

“Enquanto diretor, eu já penso no espaço que vou precisar para a encenação. E sempre gosto de trabalhar com menos. Só uso aquilo que puder passar alguma informação. Se for só para ficar bonito, eu acabo não vendo necessidade”, diz.

Em “Conduzindo Miss Martino”, contudo, o vazio ganha outro significado. “É um cenário muito limpo porque eu queria destacar esse vazio, esse buraco, que existe nos personagens”, explica Fernandes

“CONDUZINDO MISS MARTINO”

Texto: Lucas Vasconcellos. Direção: Leonardo Fernandes. Direção musical e regência: André Brant. Com Fabíola Protzner, Pedro Vianna, Ricardo Matosinho (piano) e orquestra. No Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Nesta quinta e sexta (4 e 5/9), às 20h. Ingressos à venda por R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), na bilheteria do teatro ou pelo Sympla. Informações: (31) 3516-1360.

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