Alceu Valença atende ao telefone animado, prolongando um "alô" cantado. "Diga aí, meu velho", começa. Aos 80 anos, completados em 1º de julho, o cantor e compositor pernambucano tem a energia de um menino. Até se parece com um quando se empolga falando de música. E, ao contrário de alguns colegas da mesma geração, não pretende se aposentar dos palcos.



Tem uma única reclamação: "Os deslocamentos, às vezes, são muito grandes. Chega a ser um pouco cansativo, mas vou usando esse tempo para escrever crônicas de viagens e poemas", revela.


O músico desembarca na capital mineira neste sábado (29/8) para se apresentar na Virada Cultural. Não se trata do show da turnê "80 girassóis, com a qual está em cartaz no Brasil e na Europa, mas de uma apresentação diferente, preparada para festivais. "Quando me chamam para tocar em carnaval, já tenho um show de carnaval montado. Quando me chamam para um São João, tenho outro show. E, quando me convidam para eventos no meio do ano, tenho uma terceira apresentação diferente", explica.


É nesses shows que ele aproveita para tocar canções consideradas "lado B", como "Que grilo que dá (Rock de repente)" e "Vou danado pra Catende". Lançadas, respectivamente, no disco "Mágico" (1984) e no Festival Abertura (1975), as duas músicas se aproximam do rock e levaram críticos a discutir se Alceu fazia ou não rock'n'roll. O próprio artista, no entanto, já havia dado a resposta na letra de "Que grilo...", com seu humor característico: "Meu repente é brasileiro e a pitada de estrangeiro eu boto pra te envenenar."



Ainda que leve para o show alguns de seus "lados B", os hits não ficarão de fora do repertório. Entre eles, "Tropicana", "La belle de jour", "Anunciação" e "Solidão", composta em Belo Horizonte, num quarto de hotel, depois que o músico se apresentou no Palácio das Artes, na primeira metade da década de 1980.


"Depois do show, voltei sozinho para o hotel. Passei pela portaria, peguei a chave e subi para o sétimo andar. Quando entrei no quarto e fechei a porta, a 'dona insônia' estava deitada na minha cama. Passei o tempo todo sem dormir. Quando deu 3h, abri a janela e fiquei olhando a solidão da rua e a solidão da lua. Aí fiz 'Solidão'", lembra.


A "Belô" de Alceu


A capital mineira, aliás, é uma cidade com a qual Alceu tem bastante afinidade. A última vez que esteve aqui foi em junho, para apresentar a turnê "80 girassóis". Além disso, lembra ele, a música "No tempo que me querias", lançada no disco "Na embolada do tempo" (2005), faz referência a Belo Horizonte nos versos: "Em julho estava em Havana / Sonhando com utopias / Agosto Brasília, Goiânia / Belô, Salvador, Bahia". Conforme faz questão de esclarecer, "Belô é Belo Horizonte".


Alceu, no entanto, gosta mesmo é do palco. "Pra mim, show é vitamina. Vitamina A, de alegria; vitamina H, de Harmonia; e vitamina V, de vitalidade. Gosto muito de fazer shows públicos, porque é a oportunidade de todo mundo ver", afirma. "Às vezes, algumas pessoas não têm condições de pagar para assistir a um show num espaço privado, então elas vão conseguir ver nesses eventos. E eu faço mesmo. Faço show em tudo que é canto", acrescenta.


Shows nas ruas despertam memórias do início da carreira de Alceu. Antes de se tornar músico profissional, ele jogou basquete. Integrou a equipe do Clube Náutico Capibaribe e chegou a fazer parte da Seleção Pernambucana. Depois, entrou para a faculdade de direito. Foi para os Estados Unidos na década de 1960 para realizar um curso de verão em Harvard, mas optou pela música, tocando violão nas ruas durante a efervescência da época "hippie".



Em 1975, valeu-se das ruas para garantir público para suas apresentações no Rio de Janeiro. Cumprindo temporada no Teatro Tereza Raquel, a primeira apresentação foi um fracasso, com 30 pessoas na plateia. No terceiro dia, o número caiu para cinco. Prestes a ter os próximos shows cancelados, Alceu foi para as ruas gritando: "Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhor". Conseguiu lotar as apresentações seguintes.


São lembranças que ele não esquece. "Vivo a caminhar pelas minhas urbes paralelas da memória", destaca. "Aliás, não só da memória. Eu vivo a caminhar mesmo", garante.

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Somente no dia em que concedeu a entrevista, em 26 de agosto, seu relógio havia registrado 88.850 passos. E quer andar mais. "Chegando em Belo Horizonte, vou caminhar lá naquela praça grande, redonda, nos Mangabeiras (Região Centro-Sul da capital mineira)", promete, referindo-se à Praça do Papa.


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