Morre-se de amor no fado. Demais, até. “É uma coisa boa ter um lugar para morrer de amor, mas me interessa muito cantar a possibilidade de resistir, de não morrer”, afirma Carminho. Foi por meio dos versos do escritor português António Campos Monteiro que ela encontrou o norte de seu mais recente álbum, “Eu vou morrer de amor ou resistir”.



Lançado no fim de 2025, o trabalho é o mote da nova turnê da cantora portuguesa no país. Nesta quarta-feira (19/8), Carminho estará em Belo Horizonte para show no Sesc Palladium.



“Hoje em dia, já não consigo viver sem o Brasil. Considero um país também meu. Não tem só a ver com a própria língua, mas com tudo que encontrei nesse país: as pessoas maravilhosas que conheci, os artistas com quem trabalhei. Eles me ensinaram a colaborar de uma forma muito diferente daquela que estava acostumada a praticar em Portugal.”



Ainda que nunca faltem canções brasileiras no repertório – uma das certezas é “Sabiá” (Chico Buarque e Tom Jobim), que ela gravou no álbum “Carminho canta Tom Jobim” (2016) –, a maioria das músicas vêm do novo trabalho. Autora de oito das 11 faixas, ela apresenta, no álbum, uma carta de intenções de renovação em torno do gênero intrinsecamente ligado à tradição portuguesa.



“O fado é uma linguagem viva. Não é um gênero fechado e já pronto. É algo em construção, que depende do discurso que cada artista quer fazer. Então, uso o fado como um instrumento dos meus pensamentos, da minha geração, da minha contemporaneidade, do fato de eu ser uma mulher com 42 anos. Neste preciso momento da vida, da história, quero cantar aquilo que me apoquenta, que me encanta”, afirma ela.



VOZES DE MULHERES


Grandes vozes femininas do fado, como as das irmãs Amália e Celeste Rodrigues e da mãe de Carminho, Teresa Siqueira, lhe serviram de inspiração. “Este disco está muito inspirado em vozes de mulheres que ouvi durante a minha vida. Acredito que meu canto traga essas vozes, de alguma maneira, intuitivamente. Mas também as vozes que essas vozes ouviram”, acrescenta.



Desta maneira, Carminho observa, ela trabalha com a ideia de que o fado precisa da tradição oral, do que os que vieram fizeram com ele. “Vamos nos nutrindo dos antigos para também podermos fazer nossas próprias aventuras e encarar o futuro com coragem.”



No palco, ela estará acompanhada por André Dias (guitarra portuguesa), Pedro Geraldes (guitarra), Flávio César Cardoso (viola de fado), Tiago Maia (baixo acústico) e João Pimenta Gomes (Ondas Martenot e Cristal Baschet e Mellotron). “Os meus dois últimos discos não têm só instrumentos tradicionais do fado. Não quero mudar o gênero, não tenho essa pretensão. Quero compreendê-lo, explorá-lo, subvertê-lo de vários ângulos”, continua ela.



MULTIPLICIDADE DE SONS


Fora do universo do fado, o chamado Ondas Martenot é um dos primeiros sintetizadores da história – foi criado na década de 1920. “Ele tem um lado feminino e agudo muito forte, que rima com a guitarra portuguesa. Eu queria essa multiplicidade de sons que, para mim, lembram os conjuntos de guitarras antigas do Raul Nery (célebre guitarrista português)”, explica.



Já o Cristal Baschet, originário da França, nos anos 1950, é um órgão de cristal. “Tem os sons muito espaciais e atmosféricos, que, para mim, lembra o clima de uma casa de fado.” Por fim, o Mellotron, um dos samplers pioneiros, permite uma multiplicidade de vozes.



A experimentação proposta por Carminho neste trabalho levou a cantora a fazer uso do vocoder para sintetizar a própria voz. Ela mesma maneja o dispositivo eletrônico em cena para interpretar algumas canções, entre elas a faixa de abertura, “Balada do país que dói”. O poema forte e triste da escritora e professora Ana Hatherly foi musicado por Carminho, tornando-se um fado que atravessa os tempos. “A ideia (do uso do vocoder) foi criar um corpo sônico e de poesia mostrando as minhas vozes anteriores, que muitas vezes são ambíguas.”



A cenografia do show é uma parceria de Carminho com Ângela Bismarck e Hugo Coelho. “Há muitos anos trabalho nessa parte com imenso afinco porque é uma maneira de levar as pessoas a viajar, a sonhar. O fado nunca teve a preocupação de criar mundos de cenografia, tanto que a própria iconografia dele é uma taberna com palcos mais despidos. Em determinado momento da minha carreira, compreendi que a imagem tinha que estar ligada ao disco, à música. E vice-versa”, afirma.

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CARMINHO
Show da cantora portuguesa nesta quarta-feira (19/8), às 21h, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Ingressos esgotados.


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