Texto que, na essência, trata da linha tênue que separa a civilização da barbárie, escrito em 2006 pela francesa Yasmina Reza, “O deus da carnificina” soa, hoje, em tempos de polarização e acirramento das tensões, mais atual do que nunca.
Essa foi uma das razões que levou o casal de atores Anna Sophia Folch e Angelo Paes Leme a idealizar uma nova montagem da peça, que chega a Belo Horizonte para apresentações neste sábado (8/8) e domingo, no Sesc Palladium.
A dramaturgia, com tradução de Eloisa Araújo Ribeiro, gira em torno do encontro entre dois casais que se reúnem para resolver, de forma civilizada, uma briga entre seus filhos. O que começa como um encontro cordial, no entanto, rapidamente degenera para um confronto inesperado. Com direção de Rodrigo Portella, responsável por êxitos teatrais como “Tom na fazenda” e “(Um) Ensaio sobre a cegueira”, do Grupo Galpão, “O deus da carnificina” é estrelado por Bianca Byington, Thelmo Fernandes, Angelo Paes Leme e Anna Sophia Folch.
A peça estreou no Rio de Janeiro e inicia por Belo Horizonte uma circulação nacional. O embrião desta montagem, contudo, remonta há mais de dois anos, segundo Angelo Paes Leme, a partir de uma conversa que teve com Selton Mello. “Estávamos querendo fazer alguma coisa juntos e lembramos desse texto, de que gosto bastante, é muito aclamado, montado em vários lugares, premiado no mundo todo. Selton tinha outros compromissos, mas eu segui com a ideia”, conta.
LIMITES FRÁGEIS
Ele diz que chama a atenção no texto a maneira como a autora expõe a fragilidade dos limites entre um certo pacto social de respeito e a selvageria. “É muito fácil de ultrapassar quando há um conflito maior, uma divergência. Por que a conversa entre esses dois casais perde o rumo, levando-os a lugares sombrios? É uma peça muito contundente, mas desenhada dentro de um jogo cênico cômico. Ela faz o público dar risada, mas também incomoda, porque incita reflexões sobre as relações”, diz.
Anna Sophia, que fez o convite a Portella para dirigir, afirma que o texto é um retrato incômodo dos dias atuais, mesmo tendo sido escrito no início dos anos 2000. Ela destaca que é “extremamente provocativo, na medida em que fala sobre a falência do diálogo, sobre como as pessoas defendem suas próprias narrativas a qualquer custo e sobre a rapidez com que a convivência se transforma em disputa”. O diretor, por sua vez, afirma que aceitou embarcar no projeto justamente por essa visão de mundo tão atual que ele propõe.
Ele diz que, ao longo dos últimos anos, tem se interessado por grandes obras que tentam refletir sobre os movimentos da sociedade contemporânea nas últimas duas ou três décadas. “Achei que 'O deus da carnificina' me oferecia uma ótima oportunidade de falar dessas relações sociais, pegando um recorte da elite brasileira”, pontua. Portella ressalta que teve muito cuidado ao tratar da violência que permeia o embate entre os dois casais a partir de um certo momento.
RETRATO DA SOCIEDADE
“A violência é o retrato não só da elite, mas da sociedade em geral, como se nossa essência fosse truculenta. É como se a autora quisesse dizer que a natureza humana é violenta, mas tenho medo desse discurso, acho que ele serve a um grupo social que é mais alinhado com os princípios da extrema-direita, e não me interessa dizer isso no teatro”, pontua.
O diretor destaca que o humor e a utilização das rubricas da autora pelos personagens foram o caminho encontrado para suavizar a beligerância que se estabelece entre os dois casais em cena.
“Só reproduzir a violência não me parece algo interessante, porque já estamos envoltos nela na vida cotidiana, então tento tratá-la de forma crítica, trazendo essa rubrica para a boca dos atores, como texto dramático, e não como indicação cênica”, diz.
Ele avalia que esse talvez seja o principal traço distintivo de sua montagem em relação a outras tantas já feitas de “O deus da carnificina”. Paes Leme também destaca esse aspecto: “As ações dos personagens são narradas por eles, o que gera cumplicidade com o espectador.”
Portella ressalta, ainda, que gosta de criar uma dramaturgia da encenação paralela à dramaturgia do texto. “Tento não trabalhar com as convenções”, diz. Ele cita como exemplos o figurino – que, apesar de a trama se passar na atualidade, remonta ao século 19, como forma de aludir ao atraso da elite brasileira – e o cenário – que troca a sala de estar por um gramado de parque, com carrinho de picolé.
“Quando penso nesses dois casais que vão se tornando crianças selvagens ao longo da peça, quero colocá-los nesse ambiente”, comenta.
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“O DEUS DA CARNIFICINA”
Neste sábado (8/8), às 20h30, e domingo, às 18h30, no Grande Teatro do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Ingressos para plateia 1 a R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia), plateia 2 a R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia) e plateia 3 a R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia), à venda na bilheteria do teatro e pelo Sympla.