TEATRO/CRÍTICA

'Olympia', ou Minas diante de si mesma

Em cartaz no Teatro João Ceschiatti, peça do Grupo Teatro Andante resgata, aos 50 anos de sua morte, uma das mais singulares personagens da vida mineira

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Márcio Almeida Júnior*

ESPECIAL PARA O EM

Existem pelo menos duas boas razões para assistir a “Olympia”, espetáculo do Grupo Teatro Andante atualmente em cartaz no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A primeira pertence ao calendário: em 2026 se completam 50 anos da morte de Dona Olympia, uma das personagens mais singulares do imaginário mineiro. 

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A segunda se refere ao teatro: a montagem concebida e interpretada por Ângela Mourão, dirigida por Marcelo Bones e construída a partir do texto da escritora ouro-pretana Guiomar de Grammont, chega aos 25 anos com uma forma cênica e uma carga simbólica que permanecem contemporâneas.

As duas razões se reforçam, mas não devem ser confundidas. Datas redondas podem justificar homenagens, mas não garantem, por si mesmas, a vitalidade de uma obra. Se “Olympia” continua capaz de interessar ao público depois de um quarto de século, é porque o Teatro Andante não se limitou a ilustrar uma biografia.

Em vez disso, o grupo transformou a história de uma mulher real em matéria teatral e, por meio dela, formulou perguntas que ainda nos dizem respeito: Quem estabelece os limites da normalidade? O que separa memória e invenção? Em que momento uma existência considerada excêntrica se torna uma forma de criação?

Dona Olympia em Ouro Preto, fotografada por Eugênio Silva para a revista O Cruzeiro, em 1957. Ela usa chapéu de flores e está debruçada em janela de casarão de Ouro Preto
Dona Olympia em Ouro Preto, fotografada por Eugênio Silva para a revista O Cruzeiro, em 1957 Eugênio Silva/O Cruzeiro/Arquivo EM/D.A Press

Olympia Angélica de Almeida Cotta nasceu em 31 de agosto de 1889, em Santa Rita Durão, distrito de Mariana, e morreu em Ouro Preto, em 1976, aos 87 anos. Filha de uma família de boa condição social, recebeu educação pouco comum para as mulheres de seu tempo. Lia, escrevia, tinha formação musical e, segundo diferentes relatos, estudou francês.

Paisagem humana

Foi, porém, nas ruas de Ouro Preto que construiu a presença pela qual seria lembrada. Entre as décadas de 1940 e 1970, Dona Olympia passou a integrar a paisagem humana da cidade. Subia as ladeiras em direção à Praça Tiradentes vestindo saias sobrepostas, xales, chapéus ornamentados, flores, fitas e objetos recolhidos pelo caminho. Caminhava apoiada em cajados enfeitados e abordava moradores, estudantes e visitantes para conversar, pedir pequenas contribuições e contar histórias.

Seus relatos, uma deliciosa mistura barroca de referências que merece pesquisa aprofundada, misturavam episódios da vida pessoal, acontecimentos históricos e livre invenção. Dona Olympia dizia ter conhecido Tiradentes, assim como afirmava ter convivido com personagens do Império. Contava ter sido cortejada por homens importantes e mencionava sua participação em acontecimentos separados dela por séculos. 

Sua imaginação poeticamente livre não se submetia à cronologia. Ela preferia reorganizar a história de Minas e do Brasil em chave poética para transmitir uma verdade talvez mais profunda. Num território cercado de monumentos de pedra, transformou-se no que certa vez chamaram de “monumento de alma viva”.

Avó da contracultura

A posteridade a apresentaria como “a primeira hippie do Brasil” ou “avó da contracultura”. As expressões contêm uma parcela de verdade, desde que não sejam tomadas literalmente. Há que se ter o cuidado de entender que Dona Olympia não pertenceu a um movimento político ou comportamental organizado. Mas sua maneira de ocupar a rua, compor a própria aparência, recusar certas convenções destinadas às mulheres e construir publicamente uma narrativa sobre si, sem depender da chancela social de uma época ainda presa à recusa da diferença e à padronização de comportamentos, antecipava questões que ganhariam força nas décadas seguintes.

Atriz Angela Mourão mexe em objetos em baú iluminado durante a peça Olympia
No cenário minimalista, baú de Dona Olympia abriga guardados preciosos do imaginário mineiro Daniel Renna Pereira/divulgação

O mesmo cuidado deve orientar a aproximação entre sua história e o debate contemporâneo sobre neurodivergência e saúde mental. Não seria exato atribuir a Dona Olympia a militância formulada em termos que não existiam em sua época. Tampouco se deve romantizar o sofrimento psíquico, a pobreza ou o abandono dos quais ela por certo foi vítima. Sua trajetória, entretanto, tornou-se retrospectivamente um argumento poderoso em favor do cuidado em liberdade, da convivência comunitária e do direito à diferença.

Segundo o depoimento de um sobrinho recolhido pelo Teatro Andante, Dona Olympia chegou a permanecer durante nove meses em uma instituição psiquiátrica de Barbacena, até que esse sobrinho fosse buscá-la. 
De volta a Ouro Preto, encontrou na cidade, apesar dos preconceitos e das hostilidades, uma forma possível de existência social.

E há uma coincidência histórica difícil de ignorar: no mesmo ano em que se recordam as cinco décadas de sua morte, o estado e a Prefeitura de Barbacena concluíram a desinstitucionalização dos últimos 14 moradores de longa permanência do antigo Hospital Colônia e sua transferência para uma Casa de Acolhimento Terapêutico. A distância entre o confinamento e a vida na cidade atravessa a biografia de Olympia e continua a interpelar o presente.

Filme, canção e carnaval

Antes de chegar ao palco, sua figura já havia mobilizado diferentes linguagens. Foi registrada no documentário “Dona Olímpia de Ouro Preto”, de Luiz Alberto Sartori, realizado no início dos anos 1970.
 A música criada por Toninho Horta para o filme ganhou letra de Ronaldo Bastos e foi gravada por Nana Caymmi, Milton Nascimento e pelo próprio Toninho. 

Dona Olympia também se tornou pintura, fotografia, tema de moda e personagem do desfile da Mangueira de 1990, com o enredo E deu a louca no Barroco.

A contribuição específica do Teatro Andante começa pela recusa da biografia linear. O texto de Guiomar de Grammont, elaborado em diálogo com Ângela Mourão e Marcelo Bones, combina pesquisa documental, lembranças pessoais e depoimentos de quem conviveu com Dona Olympia. 

Guiomar nasceu em Ouro Preto. Bones é filho de ouro-pretanos, e a Ângela conheceu Olympia quando criança. A montagem nasce, portanto, do encontro entre arquivo e memória incorporada, entre aquilo que pôde ser documentado e aquilo que permaneceu na tradição oral.

Atriz Ângela Mourão usa máscara ao interpretar Dona Olympia na peça Olympia
Máscaras usadas pela atriz Ângela Mourão remetem aos delírios da personagem e à loucura sem diagnóstico de Dona Olympia Daniel Renna Pereira/divulgação

A dramaturgia do espetáculo foi feliz ao não tentar resolver as contradições desse material tão diverso. Ao contrário, organizou-se como uma composição deliberadamente fragmentária e polifônica.

Não existe uma voz investida da autoridade de dizer definitivamente quem foi Dona Olympia. A personagem fala, a narradora apresenta e contesta versões, a atriz interrompe a representação para se mostrar ao público, e a máscara abre caminho para os delírios e os fantasmas da cidade. A pergunta sobre a loucura não recebe diagnóstico. Permanece como questão política, social e teatral.

Minimalismo

Do ponto de vista da dramaturgia, a modernidade da encenação está, em grande parte, na economia de meios com que Marcelo Bones organiza essas diferentes camadas. O palco não tenta reproduzir as igrejas, as ladeiras ou o casario de Ouro Preto. Um conjunto reduzido de objetos – baú, balaio, banco, cajados, chapéus, xales, máscara e instrumento musical – é suficiente para criar os ambientes e acionar a imaginação. Não se trata de minimalismo como carência, mas como escolha expressiva, em que cada objeto só ganha sentido quando atravessado pelo corpo da atriz.

A direção compreende que uma personagem visualmente barroca não exige encenação carregada, já que o contraste se revela mais produtivo. Diante do espaço depurado, a exuberância de Olympia deixa de ser decoração e se torna gesto. Chapéus, cajados e tecidos não compõem um retrato naturalista, mas funcionam como signos que podem ser apresentados, abandonados e retomados diante do espectador.

A colocação e a retirada da máscara à vista do público também impedem que a representação se esconda atrás da ilusão. A montagem, nisso dialogando com a pós-modernidade, mostra como fabrica suas imagens. Essa opção concentra a responsabilidade sobre Ângela Mourão. Sua atuação é o eixo do espetáculo e explica boa parte de sua longevidade.

A atriz transita com fluência entre pelo menos três planos fundamentais: a Olympia de voz rouca e corpo marcado pelo tempo, a narradora que organiza e comenta os acontecimentos e a própria Ângela, que suspende a ficção e conversa diretamente com o público, convidado, aliás, a interagir. A essas presenças acrescenta-se a máscara, uma quarta instância cênica, com outra composição corporal, outro ritmo e outra relação com a plateia.

De modo coerente com as escolhas estéticas de Bones, as transições são realizadas sem aparato ostensivo. Uma alteração no eixo do corpo, na direção do olhar, no andamento da fala ou na qualidade da voz basta para mudar o lugar de enunciação. A facilidade aparente encobre um trabalho rigoroso de teatro físico, dança, técnica vocal e pesquisa com máscaras.

Cena compartilhada

É admirável ver que, depois de 25 anos, a atriz consegue precisão sem cristalização. Ângela conhece profundamente a arquitetura da peça, mas preserva espaço para o acontecimento e para a resposta imprevisível do público.

Essa abertura é decisiva. Dona Olympia fazia da Praça Tiradentes um lugar de conversa, narrativa e negociação; a montagem transfere essa relação para o teatro. A plateia é interpelada, reconhecida e, em alguns momentos, incorporada à história. A quarta parede está rompida desde o início.

O espetáculo não nos permite observar Olympia à distância, como curiosidade folclórica. O que ele faz é nos colocar provisoriamente no lugar dos turistas, dos estudantes, dos que a acolheram, dos que riram dela e dos que a agrediram.

Flâmula usada na peça Olympia traz o galo, símbolo do Clube Atlético Mineiro
Objetos de cena da peça 'Olympia' têm profunda conexão com Minas Gerais Daniel Renna Pereira/divulgação

Existe, em qualquer obra sobre uma figura marginalizada, o risco de converter sofrimento em pitoresco ou diferença em objeto de contemplação. “Olympia” aproxima-se desse limite, mas não o ignora. A alternância entre personagem, narradora, máscara e atriz impede que uma única versão se imponha. O humor não elimina a violência social, assim como a ternura não cancela a solidão e a liberdade de Dona Olympia não apaga as condições precárias em que viveu. A montagem evita tanto o diagnóstico definitivo quanto a santificação.

Essas e outras qualidades explicam a longevidade do espetáculo. Estreado em Belo Horizonte, em junho de 2001, ele nasceu depois de aproximadamente um ano de pesquisa e criação compartilhada. Desde então, acumulou centenas de apresentações, passou por dezenas de cidades brasileiras e chegou a sete países. Foi apresentado em teatros convencionais, praças, escolas, hospitais, festivais e espaços comunitários.

Atravessou de barco um rio no interior do Amazonas, ocupou um circo na periferia de Vitória e teatros mantidos por coletivos na Patagônia, além do Teatro Nacional Cervantes, em Buenos Aires. E ainda sobrou fôlego para circular por Portugal, Espanha, Venezuela e Colômbia.

A variedade desses lugares ajuda a explicar o alcance da montagem. Olympia é profundamente mineira e já deveria ter sido apontada e reconhecida como parte do nosso patrimônio, mas não depende de uma ideia fechada de mineiridade.

Sua circulação demonstra que quase toda cidade conhece alguém que viveu entre a integração e a exclusão, entre o afeto coletivo e o estigma. O local torna-se universal não quando abandona suas particularidades, mas quando as apresenta com suficiente verdade artística para que outras comunidades se reconheçam nelas.

Teatro Andante

Aos 25 anos, o espetáculo também testemunha a persistência do próprio Teatro Andante, fundado em 1990 por Ângela Mourão e Marcelo Bones, companheiros de vida e de criação. Num país em que grupos teatrais enfrentam descontinuidade de políticas culturais, escassez de recursos e dificuldades de circulação, manter uma obra em repertório durante um quarto de século constitui um acontecimento artístico e institucional.

Mais importante: a longevidade não transformou a montagem em peça de museu. O tempo modificou o corpo da atriz, o olhar do público e o contexto político, acrescentando novas camadas à obra.
Gostar de Minas Gerais não pode significar apenas admirar suas igrejas, montanhas, cidades históricas e personagens oficialmente consagrados. Significa também conhecer aqueles que viveram à margem das narrativas solenes e, ainda assim, deram humanidade à paisagem. 

Assistir a “Olympia” é encontrar uma dessas pessoas – não como relíquia regional, mas como presença capaz de questionar o nosso próprio tempo. As efemérides tornam o encontro especialmente oportuno. Os méritos da montagem o tornam necessário.

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“OLYMPIA”

Texto: Guiomar de Grammont. Atuação e concepção: Ângela Mourão. Direção: Marcelo Bones. Neste sábado (8/8), às 20h; domingo (9/8), às 19h. Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro). Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada), com vendas on-line na plataforma Sympla


* Márcio Almeida Júnior é professor, jornalista e crítico cultural 

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