Em 16 de julho de 1956, chegava às livrarias uma das obras-primas mais surpreendentes da literatura brasileira: “Grande sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa (1908-1967). A trajetória do jagunço Riobaldo foi um marco, transformando a forma de se pensar e escrever sobre o Brasil.

Guimarães Rosa não se limitou a escrever uma história. Ele criou dialeto próprio, misturando a fala genuína do homem sertanejo com português arcaico, termos latinos, erudição e, claro, os famosos neologismos.

“Grande sertão: Veredas” permanece atual, a ponto de diversas obras ligadas ao universo sertanejo serem publicadas na esteira das comemorações de seus 70 anos. Não ficaria de fora, portanto, a nova edição do romance, que sai pela Companhia das Letras.

Além da história em si, a publicação traz fotos do autor, artigos de escritores contemporâneos influenciados por “Grande sertão”, cronologia, sugestões de leitura e a entrevista que Guimarães Rosa deu ao tradutor e jornalista Günter Lorenz, em Gênova, dois anos antes de sua morte.

“Nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza”, contou Guimarães a Lorenz. “Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos (…) Deste modo a gente se habitua, e narra estórias (...) No sertão, o que pode uma pessoa fazer do seu tempo livre a não ser contar estórias? A única diferença é simplesmente que eu, em vez de contá-las, escrevia”, afirmou.

O escritor mineiro narrou uma história completa em “Grande sertão: Veredas”. Riobaldo não só conta a própria trajetória, mas vive dilemas profundamente existenciais e filosóficos, como a eterna disputa entre o bem e o mal, a dúvida angustiante sobre a existência de Deus e do diabo, e o amor complexo pelo colega de armas Diadorim.

“É uma ‘autobiografia irracional’, ou melhor, minha autorreflexão irracional”, disse Guimarães Rosa.

Livro-mundo

“Grande sertão: Veredas” é um livro-mundo, define a poeta mineira Ana Martins Marques em artigo para a edição especial. De acordo com ela, a “espécie de linguagem estrangeira” que se encontra no livro é, ao mesmo tempo, uma linguagem materna.

“Às vezes sinto como se eu tivesse sido escrita por este livro: aprendi com Diadorim a prestar atenção na beleza das coisas; aprendi com Riobaldo sobre o bem e o mal, mesclados, sobre a violência e o amor, sobre memória e esquecimento, sobre viver, que é muito perigoso”, escreve.

Também assinam artigos Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Milton Hatoum, Bia Lessa, Geovani Martins, Itamar Vieira Junior e Amara Moira, além dos mineiros Eduardo Giannetti, Silviano Santiago e Heloisa Murgel Starling.

“O sertão de Guimarães Rosa é ainda o que não se vê: o fundo mítico do Brasil projetado sobre uma sociedade que vive longe do espaço urbano”, afirma Heloisa.

Diferentemente da reprodução de bordados com os nomes dos personagens que a edição de 2019 trazia, a nova publicação tem capa dura reproduzindo obra da artista mineira Sônia Gomes.

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“GRANDE SERTÃO: VEREDAS”
Edição especial de 70 anos

• De João Guimarães Rosa
• Companhia das Letras
• 608 páginas
• R$ 209,90

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