Quase todas as boas histórias de aventura são histórias de volta ao lar. Felizes, infelizes, difíceis com frequência, complicadas, por vezes frustradas. Todas têm a mesma matriz: Homero e 'Odisseia'. 'Dia D', filme de Steven Spielberg, está nessa linhagem e deixa uma impressão muito boa, ao contrário, diga-se, do recente trailer de 'A Odisseia' na visão de Christopher Nolan.
Temos aqui, entre tantas histórias que se acotovelam no roteiro, uma história de volta para casa. Talvez seja a principal do filme. Margaret Fairchild, papel de Emily Blunt, é a moça do tempo de um canal de Kansas City (portanto, um canal meio caipira) que subitamente se descobre dotada de poderes paranormais. Basta olhar para uma pessoa que lhe dá a ficha inteira. Mas Margaret desconhece uma parte de sua infância, o que parece atormentá-la.
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A história paralela diz respeito a Kellner (Josh O'Connor), também dotado de poderes. No caso dele, a linguagem matemática lhe vem inteira, com todas as equações resolvidas. É como se falasse uma língua das línguas, universal.
Kellman procura roubar, a serviço de Hugo (Colman Domingo), certos arquivos secretíssimos a respeito de visitas de extraterrestres que recebemos ao longo do século 20. Do lado contrário está Noah (Colin Firth), manda-chuva de uma corporação que detém esses documentos e pretende mantê-los secretos.
Volta ao lar
Se a volta ao lar anunciada é a de Margaret, não custa lembrar que, no passado, um ET perdido na Terra queria, antes de tudo, voltar para casa.
Em suma, temos aqui Margaret e Kellner, com seus poderes extraordinários – e que não se confundem com os de um super-herói –, tentando se apossar de documentos que a gente nem sabe quais são, e, contra eles, as forças do órgão de Noah, que são, a rigor, forças do governo.
Há mais gente envolvida, como freiras e uma noviça rebelde, agora ex-noviça, sem contar a apocalíptica Terceira Guerra Mundial prestes a acontecer, que a TV de Kansas tenta mostrar da melhor maneira possível.
Mas o centro é a luta de Margaret e Kellner, a que não falta uma perseguição automobilística que se desdobra em aventura ferroviária. E aqui Steven Spielberg mostra o que tem de melhor.
Quando filma a perseguição, sentimos não aquela convenção banal de quase todo filme hollywoodiano, mas a retomada de uma tradição. É como se mergulhasse em 1920, em Griffith e em Buster Keaton. Na sequência em que entra o trem, é como se toda a tradição ressurgisse, nova em folha. Esse é o grande truque.
Noah (Colin Firth, ao centro) é o chefão da corporação dona de documentos que comprovam fatos sobrenaturais na Terra
O pano de fundo é bastante claro: os ETs trazem as virtudes da tolerância e da empatia para o mundo dos homens. Esses, no entanto, parecem mesmo fascinados com a possibilidade de criar nova guerra, que, claro, é uma ameaça à sobrevivência da espécie humana.
Desde muito tempo atrás, Spielberg escolhe o lado dos extraterrestres, não o dos homens. Esses são irracionais a ponto de se meterem numa guerra a que mesmo os vencedores sucumbirão. Isso o filme não diz, mas está subentendido.
Quanto a Noah e sua corporação, que bem pode ser assimilada como algum órgão oficial de informações, tudo que precisam é reter as informações, usá-las como armas. E liquidar os ETs que podem oferecer uma alternativa à insânia bélica dos humanos.
Steven Spielberg (ao centro) dirige os atores Emily Blunt e Wyatt Russel no set de 'Dia D'
Enfim, 'Dia D' é uma digna sequência de 'E.T. O extraterrestre' e 'Contatos imediatos de terceiro grau', agora numa chave mais grave e mais adulta.
Quanto ao seu destino como produto, periga desagradar um público que se acostumou a ver nos filmes de Spielberg algo imediatamente apreensível, comunicante. Desta vez, o roteiro esconde por um bom tempo o sentido do filme e passa a exigir bastante atenção, dado que não é caso de distinguir de imediato quem é mocinho e quem é vilão nessa história, por quem devemos torcer e coisa e tal.
Vai e vem
É um filme adulto, em suma, embora honre a herança dos filmes fantásticos do cineasta, que fascinaram as crianças a seu tempo. Há, talvez, um excesso de vai e vem a retorcer a trama, tornando-a um tanto rocambolesca demais, tributo ao gosto contemporâneo pelo excessivo, sem dúvida.
Em troca, temos um segundo lar ao qual retornar: a estação de TV. Ali, Margaret surge, logo no início, para dar as inofensivas notícias da meteorologia. Inofensivas, porque o tempo que vai fazer não depende de nós. No final, ao contrário, estaremos na TV novamente, reentronizada como grande e universal meio de comunicação, às voltas com notícias bastante graves.
Não esquecer, por fim, que este belo filme rouba seu título, na tradução brasileira, do dia decisivo da Segunda Guerra.
Se Spielberg retorna ao fantástico, abdicando da necessidade do megassucesso prévio em favor daquilo que realmente o atormenta e atemoriza, o seu 'Dia D' é também aquele em que se decide o que o homem pretende de si mesmo e, afinal, o destino da espécie, agora e daqui a pouco.
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'DIA D'
EUA, 2026, 145min. De Steven Spielberg, com Emily Blunt, Josh O'Connor e Colin Firth. Classificação: 12 anos. Estreia nesta quinta (11/6) nas salas dos shoppings BH, Boulevard, Cidade, Contagem, Del Rey, Diamond, Estação, Itaú, Minas, Monte Carmo, Norte, Pátio, Ponteio e Via Shopping, além do Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cine Belas Artes.
