“Há dois tipos de escritores: os que olham para o espelho e escrevem sobre os próprios sentimentos, e os que olham pela janela”, afirma Maria Valéria Rezende. Ela se coloca na segunda categoria. “Como educadora popular inspirada em Paulo Freire, minha principal ferramenta sempre foi a pergunta que faz o outro expressar sua experiência. Foi o que ouvi dos outros, sobretudo do povo trabalhador”, diz.
Aos 83 anos, a autora participa nesta terça-feira (9/6) do projeto Letra em Cena, às 19h, na Sala Multimeios do Centro Cultural Unimed-BH Minas. Na conversa com o público, vai comentar a própria trajetória e obras como “Quarenta dias” (2014), “Carta à Rainha Louca” (2019) e “Recapitulações” (2025), seu lançamento mais recente.
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“Fico sempre espantada que, com tanto livro no mundo, as pessoas queiram ler logo os meus. Por isso, gosto muito de conversar com os leitores. Eles me contam o que tem ali dentro que eu mesma não sabia”, revela Maria Valéria. “Cada leitor completa a história de alguma forma. Isso é muito importante, porque a literatura minimamente boa é aquela que não só permite, mas pede a parceria do leitor.”
Porto Alegre
Quando escreveu “Quarenta dias”, lançado pela Alfaguara em 2014, Maria Valéria saiu de João Pessoa (PB) rumo ao Rio Grande do Sul para conceber a trajetória de Alice, professora aposentada obrigada a deixar o Nordeste e se mudar para o Sul. Ao longo de 40 dias, a protagonista cruza favelas e bairros pobres, convivendo com moradores de rua, migrantes e trabalhadores precarizados, entre outros personagens invisibilizados pela sociedade.
Primeira Leitura: 'Requadrilha', de Maria Valéria Rezende
A ideia do romance começou a partir do convite para integrar um projeto literário em que escritores passariam 10 dias em outro estado para escrever um livro. “Fui para Porto Alegre e fiquei 10 dias, mas não foi para a frente. Aquilo ficou na minha cabeça. Decidi voltar e passei mais uns 20 dias lá, andando por toda a cidade. Inclusive, passando a noite na rua”, conta. “As pessoas até costumam dizer que eu dormia na rua, mas isso não é verdade. Eu ia para as ruas espiar, não para dormir”, brinca.
Já “Carta à Rainha Louca” (Alfaguara) nasceu da pesquisa iniciada nos anos 1980, quando Maria Valéria recebeu bolsa de estudos para o México. Interessada na presença feminina na história colonial latino-americana, descobriu que quase todos os registros sobre as mulheres eram escritos por homens.
“Havia uma única exceção: as freiras. Eram as únicas mulheres que escreviam”, diz a autora, que também é freira.
A curiosidade virou hábito de pesquisa. Sempre que passava pela Europa, fazia escala em Lisboa para consultar o Arquivo Ultramarino. “Fui anotando tudo. Quando virei escritora depois dos 70 anos, meio sem querer, me dei conta do material que tinha.”
Da investigação nasceu o romance, ambientado em Olinda do século 18. Isabel das Santas Virgens, confinada em um convento, escreve longa carta à rainha portuguesa Maria I para denunciar abusos de poder, misoginia, violência sexual, escravidão e perseguições religiosas.
Kafka, Machado e Drummond
No recente “Recapitulações” (Editora 34), Maria Valéria não precisou viajar para escrever. O deslocamento foi imaginativo. A autora mergulhou em devaneios e fabulações para revisitar clássicos de Franz Kafka, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade.
Nas mãos da escritora, Gregor Samsa, protagonista de “A metamorfose”, não acorda transformado em inseto, e sim o contrário. Desperta “sentindo-se mutilado, sem antenas e sem as patas de sempre”. Para sua surpresa, havia se tornado “um humano monstruoso”.
No poema “Quadrilha”, de Drummond, rebatizado “Requadrilha”, não é mais “João amava Teresa, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili, que não amava ninguém”. A estrutura permanece, mas os donos dos amores foram trocados.
Recapitulando
Talvez o gesto mais ousado do livro seja “Recapitulação”, conto em que Maria Valéria revisita “Dom Casmurro” pela perspectiva de Capitu, voltando a uma das discussões mais célebres da literatura brasileira. A autora sabe que mexe em territórios sensíveis, mas não se intimida diante da opinião dos leitores. A reação do público, afinal, faz parte da “parceria” entre escritor e leitor.
Enquanto percorre o país lançando “Recapitulações” – na semana passada, participou da paulistana A Feira do Livro –, Maria Valéria mantém quatro romances em andamento. Um deles já está perto do fim. “Falta só o último parágrafo. Vou escrever assim que chegar em casa. Mas não posso adiantar o nome do livro nem sobre o que é a história. É segredo”, avisa.
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LETRA EM CENA
Com a escritora Maria Valéria Rezende. Nesta terça-feira (9/6), às 19h, na Sala Multimeios 1 do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Mediação: José Eduardo Gonçalves. Leitura de textos: Vanessa Perroni. Entrada franca, mediante retirada de ingressos na plataforma Sympla.
