Como o próprio nome diz, “Copan” é um documentário sobre o Edifício Copan, que completou seis décadas em maio. Mas isso traz à diretora, de imediato, um enorme problema: por onde apanhar esse edifício? O momento da construção, a importância urbana na São Paulo das décadas de 1950 e 1960, quando ela era “a cidade que mais cresce no mundo”?
Ou seria a solução explorar de que forma ele persiste como um cartão-postal da cidade tantas décadas depois e apesar de terem construído um edifício horrível bem na sua frente? Ou o que restou do projeto de Niemeyer, um prédio onde convivessem diferentes classes sociais? E que fosse um centro comercial que antecipava, de certa forma, as superquadras brasilienses, ou, ainda, os altos e baixos de sua história.
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Tudo isso esteve, certamente, nas preocupações da diretora Carine Wallauer. Sabendo que a história do Copan era necessariamente mais ampla do que as possibilidades do filme, ela priorizou alguns aspectos. O ponto de partida foi construir um Copan que evitasse entrevistas habituais com os moradores.
Já no início, somos jogados diante da figura principal do Copan: seu síndico, em pleno trabalho. É alguém que chamam até de subprefeito. Um homem estressado, que precisa falar por telefone com um condômino que acusa o vizinho de tê-lo xingado. Ele sugere qualquer coisa e desabafa: “Preciso agora ensinar as pessoas a terem educação?”
O síndico pode ser importante nessa história, mas não o centro. Estamos em um edifício que tem desde apartamentos confortáveis até quitinetes. O que cada um pede dele? Há situações em que ele mostra um quê ditatorial, ou ao menos autoritário.
Há outros aspectos. O arquitetônico é onde possivelmente Wallauer melhor se sai. Explora não o óbvio, mas aquilo que raramente o passante vê: rampas, o subsolo, as escadarias, as portarias, os trabalhadores, o andar superior, os corredores, janelas.
Há planos belíssimos, mas sempre fica a sensação de que o aspecto arquitetônico não explica tudo. Nem poderia. A ideia de evitar entrevistas nos priva de conhecer a diversidade dos habitantes ou passageiros, pois hoje é um lugar onde há até Airbnb.
Com tanta coisa, é difícil evitar a dispersão. A diretora não dá conta de tudo. Apenas no final, na verdade, parece achar um eixo para ancorar sua narrativa. Estamos no dia das eleições presidenciais de 2022. Segundo turno. É evidente que num edifício dessas proporções se encontrem adeptos e mesmo propagandistas de um e de outro candidato. O filme parece não ligar tanto para o fervilhar na cidade, ao menos até o momento decisivo da apuração.
Pode-se ver a ansiedade dos partidários de Lula e a progressiva desesperança de bolsonaristas, que escutam ao longe o ruído das festividades petistas. É uma pena que Carine Wallauer não tenha feito das eleições o eixo central de sua empreitada. Não para explorar o lado político, mas trazer as diferentes formas de ver o país, a vida, o mundo, mostrar por que alguns se desconsolam enquanto outros se alegram. O que esperam ou esperavam do futuro?
Pois a eleição é, em boa medida, feita de fantasia e projeção de futuro. Assim, também a vida dos condôminos de um edifício que não se limita a ser um lugar de habitação, mas de convívio de diferenças.
É um pouco dessa vida, dessas trocas, que o filme deixa escapar. O lado dos petistas, dos antipetistas ou mesmo dos indiferentes. Este confronto, que habitava os apartamentos, sua decoração, suas roupas, mas também as conversas, lojas, praças de entrada, teria criado a unidade que o filme busca, mas não alcança.
Era mesmo difícil. O Copan não é só um edifício, é também um labirinto. Algo que o filme, com seus altos e baixos, até consegue, de tempos em tempos, sugerir. (Inácio Araújo/Folhapress)
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“COPAN”
Brasil, 2025, 98 min. Documentário de Carine Wallauer. Sala 3 do Cine Belas Artes, às 15h10.
