Cinco décadas antes de o porto-riquenho Bad Bunny cometer um estrondoso atentado cultural – com apologia aos saberes latino-americanos em pleno coração dos Estados Unidos, recebendo dura reprimenda de Donald Trump – , de forma mais orgânica, mas não menos relevante, o grupo Tarancón provocava alvoroço na cena underground brasileira ao fundir as tradições nacionais com elementos ancestrais da América Latina.
Fundada em 1972, a partir da colaboração entre artistas do Brasil e de países vizinhos, que encararam com coragem e criatividade a barra pesada das ditaduras militares que pululavam pelo continente, a banda encantou o público com o álbum "Gracias a la vida", que completa 50 anos em 2026. Para celebrar a efeméride, o hepteto formado por Maetê Miràh, Emílio de Ángeles, Natália Gularte, Jorjão Miranda, Ademar Farinha, Jonathan Andreoli e Jam Miranda se apresenta no Teatro do Centro Cultural Unimed- BH Minas, nesta sexta-feira (5/6), às 17h30 e às 20h.
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Decano
Único remanescente da formação original, Emílio de Ángeles é o decano do grupo. Aos 75 anos, ainda manifesta o frescor de uma rebeldia juvenil e sustenta a coesão entre os primórdios e o presente do Tarancón.
"Sou o sobrevivente do começo, mas no início eram só três, não era tanta gente assim. Éramos a Miriam, o Jica e eu. Depois, somou a Alice, foi chegando a Marly e tal. Para mim, o importante é manter essa estrutura sonora, essa mistura de quenas (flautas de bambu), zamponhas (flautas andinas de Pã) e violas com bombo legüero, congas, tambores, coisas de Jurema, enfim, esse Brasil do interiorzão, da raiz, que ainda quer a terra limpa", comenta o flautista, percussionista e cantor de voz firme e grave.
A costura entre o passado e o presente do Tarancón é estabelecida de forma uterina. Aos 38 anos, Maetê Miràh, atual vocalista do grupo, é filha da cantora original, Miriam Miràh, considerada nos círculos de iniciados a "diva brasileira da América Latina".
Entre realizações de uma carreira memorável encerrada em 2022, aos 68 anos, a matriarca se destaca com a apresentação realizada no Festival dos Festivais, no superlotado Maracanãzinho, em 1985, quando, com formosa barriga grávida, encantou e empolgou o público com "Mira Ira" ("Nação Mel"), faturando o segundo lugar do evento transmitido pela Rede Globo.
"Acredito que o festival foi o momento em que escolhi minha mãe e como viria ao mundo, vendo-a cantar grávida da minha irmã, Ana Ira. 'Mira Ira' representa um dos grandes momentos do grupo. Momento de encontro, de festa, da consagração de um jeito de fazer a mescla da música latino-americana", comenta Maetê, que se emociona ao falar sobre a missão de manter vivo o legado deixado pela mãe.
"Existe um sentimento de muita responsabilidade, de representação e de continuidade que me empurra a entregar meu melhor em cada apresentação. Mas também existe um sentimento de alegria imensurável, pois ela está sempre no meu coração e posso carregá-la comigo, nos valores, nos ensinamentos, no sangue e na música, ao mesmo tempo imprimindo meu jeito de ser e de estar no palco como artista", completa.
O show desta sexta-feira desperta especial carinho em Maetê, pois a faz lembrar o processo que a levou a integrar o Tarancón. Em 2013, a banda excursionava com o Projeto Álbum, no qual reproduzia integralmente o repertório do disco "Gracias a la vida". Naquela época, Míriam Miràh não integrava mais a banda, mas foi convidada para matar a saudade do público.
"Enquanto ensaiava as músicas e arranjos em casa, ela me pediu para cantar 'Soy libre, soy bueno'. Sorriu e perguntou se eu faria com ela, pois o álbum 'Gracias a la vida' tinha mais presenças femininas: Alice Lumi Satomi, que também participou do show, e Marly García Pedrassa, que infelizmente estava muito longe (mora na Espanha). Ambas musicistas incríveis e amigas queridas da mamãe. Depois daquela apresentação, o Ademar Farinha me ligou e me chamou para participar de outros shows. Deu certo. Estreei com o Tarancón em Belo Horizonte, no Cine Theatro Brasil. Pura emoção. Então, imagina minha alegria de voltar e ainda comemorar os 50 anos do álbum. Estou superfeliz", conta Maetê.
Os casos de família que levam o Tarancón adiante não param por aí. Existe também herança e inspiração paternal, como revela o mais jovem integrante do grupo, Jam Miranda, de 21.
"Ingressei no Tarancón a partir do dia em que nasci, sem ironia. Meu pai, Jorjão Miranda, é integrante do grupo há 33 anos. Assim, já nasci com laços familiares com o Tarancón", explica.
Apesar da diferença geracional e das tendências da moda, ele se mostra feliz e privilegiado. "A maior motivação é acreditar muito nesse trabalho, receber o carinho de inúmeras pessoas que, no final do espetáculo ou pelas redes sociais, compartilham histórias com o Tarancón. Dia desses, recebi no Instagram uma mãe que dizia que comprou ingresso na primeira fila para ela e a filha de 7 anos para o show que faremos em Belo Horizonte, porque a música preferida da menina é 'Canto lunar', uma das canções mais emblemáticas e queridas pelo público. Isso aquece o coração do grupo", comenta Jam.
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“TARANCÓN”
Show "50 anos de 'Gracias a la vida'". Nesta sexta-feira (5/6), às 17h30 e 20h30, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Inteira: R$ 160 (plateia 1) e R$ 130 (plateia 2), com meia na forma da lei. À venda na plataforma Sympla.
