Com a morte repentina da filha, mãe passa a viver entre realidade e delírio, tentando entender como lidar com a perda. Mas o que fazer quando o ser amado se torna ausente?
Deste vazio nasceu “... quando tudo desaparecer…”, peça de Raphael Vidigal Aroeira em cartaz no Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes neste fim de semana. O espetáculo segue em temporada no Teatro da Cidade (11 a 14/6) e na Funarte (18 a 21/6; 25 a 28/6).
É a estreia do jornalista Vigidal na dramaturgia, depois de trabalhar como repórter de cultura em diferentes veículos – vem daí a intimidade com a palavra escrita. Seus textos se alternavam entre gêneros diametralmente opostos – poesia e reportagem. A peça “...quando tudo desaparecer…” rompe esta divisão.
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A dramaturgia traz a narrativa contemporânea do teatro, fragmentária e poética. Com forte apelo onírico, algumas personagens são mais alegóricas, funcionando como consciência das outras para questionar como cada um encara a perda. “Elas assumem formas distintas a depender de quem está vivenciando essa ruptura”, diz Raphael.
“No fundo, a peça trata de pessoas debatendo a respeito da ausência. É algo que está sempre no horizonte, porque também estamos fadados ao desaparecimento”, afirma o autor.
Dirigido por Gabriela Luque, o elenco reúne Gláucia Vandeveld, Adyr Assumpção, Cláudio Dias e Camila Felix. Com carreira consolidada no cinema e nos palcos com a Zula Cia de Teatro, Gláucia interpreta a mãe enlutada.
“Ela está em um embate por causa da perda. Fica se questionando, quer reencontrar a filha de alguma forma”, comenta.
Outro plano
A jovem ganha vida por meio da atriz, bailarina e coreógrafa Camila Felix, que em 2023 foi uma das protagonistas da montagem premiada de “Vestido de noiva”, clássico de Nelson Rodrigues (1912-1980), levada aos palcos pelo Grupo Officina Multimédia.
“Digamos que tenho certa experiência em fazer pessoas que estão em outro plano”, brinca Camila. “Mas, diferentemente do 'Vestido' (quando seu papel transitou entre realidade, memória e alucinação), minha personagem agora está totalmente em outro plano. Está bem confusa e dividida sobre se queria isso ou não”, ressalta.
Cláudio Dias e Adyr Assumpção interpretam, respectivamente, o o homem apaixonado pela jovem falecida e a figura que remete à morte, por quem a moça sente fascínio e cumplicidade.
“Algumas de minhas referências não são diretas do teatro”, conta Raphael Vidigal. É o caso do cineasta sueco Ingmar Bergman e do escritor russo Dostoievski.
“Em relação ao teatro, diria que eu talvez tenha um pouco do Beckett, com certa desesperança e algum desterro”, avalia.
Ofélia
Outra figura dos palcos serviu de referência para “... quando tudo desaparecer…”. É Ofélia, personagem de “Hamlet”. A moça é levada à loucura após Hamlet matar seu pai acidentalmente, o que a faz se afogar intencionalmente.
“Traço muitos paralelos entre o momento final da Ofélia, integrando-se de novo à natureza, com a passagem da minha personagem. Por mais que não tenha pensado na Ofélia para construí-la, ela sempre me vem à mente”, diz Camila Felix.
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“... QUANDO TUDO DESAPARECER…”
Peça de Raphael Vidigal Aroeira. Direção: Gabriela Luque. Com Gláucia Vandeveld, Adyr Assumpção, Cláudio Dias e Camila Felix. Nesta sexta-feira (5/6) e amanhã, às 20h; domingo (7/6), às 19h, no Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda na bilheteria e na plataforma Sympla.
