Aos 40 anos, depois de reaprender a dizer “não”, romper vínculos que já não faziam sentido e abandonar a ansiedade de agradar o mercado ou expectativas alheias, Di Ferrero transformou sua travessia pessoal em música.

“Se7e”, novo álbum do cantor, que já está disponível nas plataformas, foi feito enquanto a vida acontecia, em meio a shows, turnê, premiações e reencontro com o público. Não foi planejado do começo ao fim. E, talvez por isso, apresenta-se como um disco sobre mudança. Não apenas estética, mas emocional.


“Em relação ao álbum anterior [“‘Uma bad, uma farra”, o primeiro da carreira solo do artista], estou muito mais objetivo em saber o que quero de sonoridade”, afirma.

“Não deixei minha veia rock, mas entendi que tinha tantas outras coisas que eu gosto de ouvir e que poderia abordar sem ter que ficar tentando me provar. Foi um processo de me desligar de qualquer coisa externa, tocar o meu instrumento e fazer música sendo o mais sincero possível”.


A liberdade sonora não atrapalha a coesão de “Se7e”. Ao longo de 11 faixas, Di transita entre o pop rock e o pop eletrônico, com referências de diferentes épocas. “Fim do mundo”, por exemplo, evoca a sonoridade do pop oitentista, ao mesmo tempo em que flerta com Billie Eilish. A repetição sussurrada da palavra “sozinho” remete, em certa medida, a “Bad guy”.


O paralelo, contudo, termina aí. “Fim do mundo” segue outra levada rítmica, embalada por guitarra, baixo e bateria. Em clima de festa, a música, que poderia ser interpretada como ruptura de relacionamento em uma primeira audição, tem camadas mais profundas, principalmente quando se sabe o contexto em que foi escrita.


Caos e confusão

“Fui para Los Angeles fazer umas músicas com a galera lá. Depois de uma sessão de estúdio, a gente foi atacado por um cara na rua. Ele estava drogado, fechou a mão e começou a dar porrada em todo mundo. Tivemos que segurá-lo no chão até a polícia chegar”, conta Di. “Foi uma loucura. No outro dia, quando a gente foi compor, não tinha como não falar do que tinha acontecido.”


Isso faz com que o “fim do mundo” do título abra possibilidade para duas leituras. Uma ligada ao caos do mundo contemporâneo e a outra, íntima e emocional. No primeiro plano, a música nasce da sensação de que tudo pode mudar em um segundo. Os versos “me preparando para o fim do mundo / eu já não ligo pra onde vou” soam como retrato de alguém emocionalmente abalado, tentando sobreviver em um mundo instável.


Ao mesmo tempo, a letra funciona como ruptura afetiva. O “fim do mundo” também parece acontecer dentro de quem canta. Isso fica claro em “eu vou te esquecer / nem que só por um minuto”.


A instabilidade emocional também aparece em “Deixa sonhar”, na qual Di Ferrero divide os vocais com Jenni Mosello. O incômodo agora é com a velocidade com que o tempo passa, fazendo nascer a vontade de prolongar momentos bons da vida.

É a canção do disco que mais chega perto da sonoridade do NX Zero, embora o refrão seja carregado de elementos do pop contemporâneo. O que remete ao trabalho da primeira banda de Di são os dedilhados de guitarra e a linha de bateria complexa à la Daniel Weksler, baterista do NX Zero.


Charlie Brown JR.

Já em “Então volta”, o riff inicial da guitarra soa muito semelhante às músicas do Charlie Brown Jr. Não é por acaso. Quem compôs foi Thiago Castanho, ex-guitarrista e um dos principais compositores do grupo de Santos. “Quando ele me mandou essa guitarra inicial, eu falei: ‘Cara, isso é muito Charlie Brown.’ Tinha o mesmo espírito, aquela característica deles”, conta Di, animado.

“Aí, eu tive que ter o cuidado de não tentar imitar o Chorão [vocalista do Charlie Brown]. No fim, consegui colocar minha vibe ali, com minha história e influências, sem medo de ser feliz”, comenta.


Desde que seguiu carreira solo, com o hiato do NX Zero, em 2017, Di Ferrero se viu obrigado a tocar outros instrumentos, além do violão. Criou intimidade com bateria, piano e guitarra, a ponto de chegar ao processo de criação de “Se7e” com a noção dos timbres que queria para as músicas e como cada instrumento poderia ser explorado.


“Se apareceu uma voz desafinada, mas ela foi gravada em um dia importante para mim, eu deixei, não quis que arrumasse. Se a guitarra ficou mais alta do que a voz em alguma faixa, e eu achei legal, também deixei. Até porque essas imperfeições fazem parte de mim também. Fazem parte das letras das músicas, que falam de sensações, sentimentos e vulnerabilidade”, diz.

FAIXA A FAIXA

• “Intro SE7E”


• “Universo paralelo”


• “Deixa sonhar” feat Jenni Mosello


• “Azul (Oceano)” feat Matheus Asato e Gee Rocha


• “Unfollow”


• “Cuida”


• “Além do fim”


• “Fim do mundo”


• “Então volta” feat Thiago Castanho


• “Som da desilusão”


• “Unfollow (Ao vivo)”

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“SE7E”
• Álbum de Di Ferrero
• 11 faixas
• Disponível nas plataformas digitais e em vinil em breve

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