Em 1942, aos 19 anos, Fernando Sabino enviou carta a Mário de Andrade. Já consagrado como um dos principais nomes do Modernismo, o autor de “Macunaíma” respondeu ao mineiro com comentários sobre “Os grilos não cantam mais” (1941), livro de estreia do jovem autor.

A troca marcou o início da relação entre os dois escritores, de gerações muito distintas, dando origem à amizade e à correspondência que se estenderiam até a morte de Mário, em 1945.

“Meu pai era muito jovem e o Mário de Andrade, já consagrado, era o ícone do Modernismo. Ele mandou despretensiosamente um livro para o Mário, que respondeu dizendo que a obra era muito boa”, conta Bernardo Sabino, sexto filho do escritor e presidente do Instituto Fernando Sabino.

Mário de Andrade morreu de ataque cardíaco aos 51 anos. O material foi publicado pela primeira vez em 2003, no livro “Cartas a um jovem escritor e suas respostas”.

“Nessas cartas, é bem clara a relação dos dois e a importância do Mário de Andrade na carreira literária do Fernando Sabino”, afirma Bernardo. “Mário o aconselhava sobre como se tornar um escritor. Comentavam também coisas pessoais”, explica.

Trinta anos de diferença não impediram a amizade entre Fernando Sabino (1923-2004) e Mário de Andrade (1893-1945)

Reprodução

As conversas dos dois giravam em torno da escrita de Fernando Sabino, mas também acompanharam o amadurecimento do autor. Em apenas três anos, ele se casou, teve um filho, mudou-se para o Rio de Janeiro e, nas palavras de Bernardo, “se tornou adulto com uma rapidez muito grande”.

Em 2024, as cartas foram expostas na sede da Procuradoria-Geral de Justiça, em Belo Horizonte. No ano passado, a história virou peça de teatro.

O espetáculo “Cartas a um jovem escritor” chega a Belo Horizonte para apresentação única nesta terça-feira (19/5), às 19h30, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas. Idealizada pelo próprio Bernardo Sabino, a peça estreou, em outubro do ano passado, no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista.

No palco, a relação entre os escritores não se resume à leitura das cartas. Um personagem fictício, o Carteiro, foi inserido na narrativa.

“É uma figura fundamental para que o público possa gostar da peça, para ela não ficar apenas na declamação de cartas. O Carteiro dá aquele tom alegre”, observa Bernardo.

A dramaturgia é assinada por Paulo Williams, diretor artístico do espetáculo. Ele conduziu a transposição do texto do livro para o palco e orientou os atores Caio Horowicz, Fábio Neppo e Rodrigo Mercadante.

Além dos atores, o espetáculo conta com a participação de Milo Sabino, sobrinho-neto de Fernando, que recebe o público na porta do teatro.

A trilha sonora ficou a cargo de Wagner Tiso, parceiro antigo dos Sabino. Um dos criadores do Clube da Esquina, o compositor e instrumentista trabalhou na trilha do filme “O grande mentecapto” (1986), de Oswaldo Caldeira, e participou de shows da cantora Verônica Sabino, filha de Fernando.

Bernardo diz que sua relação com a obra do pai ganhou novo significado ao se transformar em trabalho. “As pessoas sempre me perguntam como é ser filho de Fernando. Mas sou filho do meu pai, independentemente da profissão que ele tenha”, afirma.

Dedicação

Ao longo dos últimos anos, ele tem se dedicado a vários projetos ligados ao escritor. “É emocionante conseguir realizar uma peça da obra dele. Para mim, significa realização profissional como produtor cultural”, comemora.

A correspondência entre Fernando e Mário é atemporal, acredita Bernardo. “Apesar de as cartas terem sido escritas há muito tempo, são atuais os temas sobre os quais os dois conversam. É um dom de poucos gênios, que conseguem não perder a atualidade mesmo passando vários anos”, conclui.

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“CARTAS A UM JOVEM ESCRITOR”

Peça de Paulo Williams. Projeto de Bernardo Sabino. Com Rodrigo Mercadante, Fábio Neppo e Caio Horowicz. Nesta terça-feira (19/5), às 19h30, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), à venda na plataforma Sympla e na bilheteria do teatro.

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