Ainda que o teatro tenha sido a porta de entrada de Gregório Duvivier no mundo das artes, é inegável que a TV e as redes sociais deram projeção exponencial ao seu humor. “Mas com plateia é mais fácil, não tem nada mais gostoso”, afirma ele. O público agradece.


Duvivier volta a Belo Horizonte com o espetáculo “O céu da língua”. Apresentada há seis meses na cidade, a montagem retorna para temporada no Palácio das Artes. Serão oito sessões, desta quarta (22/4) a sábado – todas esgotadas. A peça abre as comemorações de 25 anos do projeto Teatro em Movimento.


Lançado em Portugal, no final de 2024, “O céu da língua”, texto de Gregório e de Luciana Paes, que assina também a direção, já soma mais de 250 mil espectadores. Não só no Brasil, onde foi apresentada em 50 cidades, mas também no exterior. Além de Portugal, houve turnê em outros oito países.


Formado em letras pela PUC-RJ, Gregório faz uma declaração de amor à língua pátria no espetáculo. Sempre com o flanco aberto para o riso, ele mostra como o português se reinventa a todo instante e como a língua faz poesia cotidiana no Brasil. “Adoro nosso til (~), que faz um som que só a gente tem”, diz ele, na entrevista a seguir ao Estado de Minas.


Como foi a recepção do espetáculo no exterior?
Foi muito gostoso em Portugal e talvez ainda mais em países não lusófonos, porque as pessoas estavam muito carentes de falar e ouvir português. E a peça é uma celebração da língua, mas também do Brasil. Então ela adquiriu esse lugar meio de canção do exílio. Uma celebração de um Brasil possível, através, claro, dessa ode à língua portuguesa.


Você brinca com várias palavras no espetáculo, inclusive falando daquelas de que não gosta. Pessoalmente, não suporto mais ouvir icônico e potente. Quais são as suas palavras insuportáveis?
Essa você tem razão: icônico é uma palavra que está chata. Tem isso: as palavras vão sendo gastas. Falo um pouco disso na peça. Odeio, claro, mindset, acho insuportável. Mas também tem o abuso dos afetos.

Nossa, chamar o parceiro de afeto é uma coisa que me mata. Meu afeto, quê isso? Não pode, não tem romance nenhum. Mas, claro, esposo também é difícil. Ou esposa. Cônjuge nem se fala. Enfim, a lista é interminável.


Ainda sobre a língua, o que você mais gosta no português?
Os nossos inhos eu adoro, e também nossos ãos. Adoro nossos aumentativos, nosso til (~), que faz um som que só a gente tem. Esse ão é ótimo. Amo todas as palavras assim, coração, paixão.

Amo também nosso infinitivo pessoal. Só o português flexiona o infinitivo, aliás, quase só. O português e o húngaro são as línguas que flexionam o infinitivo, ou seja, que falam por querermos ou o fato de querermos. Isso acho lindo também. E claro, ser e estar. Ser e estar é uma tecnologia maravilhosa.

Os "imortais" são escolhidos mediante eleição por voto secreto dois meses depois de a cadeira ter sido declarada vaga. Arquivo Nacional / Domínio Público
A ABL tem 40 membros efetivos e perpétuos. Quando um acadêmico morre, a cadeira é declarada vaga e quem quer concorrer à vaga tem dois meses para se candidatar. Acervo ABL/Domínio Público
A instituição funciona no palacete Petit Trianon, réplica da construção homônima em Versalhes. O imóvel foi doado pelo governo francês à ABL em 1923. Wolfhardt / Wikimedia Commons
A Academia Brasileira de Letras foi inspirada no modelo da Academia Francesa e fez a sessão inaugural em 20/07/1897. Ao longo do tempo, elegeu não apenas escritores, mas também pessoas que exercem outras atividades na cultura e na política. Estúdio Luiz Musso / Domínio Público
Graciliano Ramos (1892– 1953) - Autor de uma das obras mais importantes sobre o sertão nordestino (“Vidas Secas”), foi um expoente no regionalismo. Militante comunista, chegou a ser preso e morreu aos 60 anos, deixando obras póstumas notáveis. Entre elas, "Memórias do Cárcere". LABCOM - FLICKR
Lima Barreto (1881-1922) - Neto de uma escrava liberta, foi autor de romances, contos e crônicas memoráveis; jornalista polêmico; ícone na luta contra o preconceito racial; um dos mais destacados escritores das primeiras décadas do século XX. Tentou sem êxito ser eleito para a ABL. Morreu aos 41 anos. FLICKR
Em 2024, a atriz australiana Cate Blanchett, um dos maiores nomes do cinema, declarou que é fã de Clarice Lispector e que a leitura de seus livros exerce influência e inspiração sobre ela. Instagram @cate_blanchettofficial
Clarice Lispector (1920-1977) – Brasileira nascida na Ucrânia, autora de romances, contos e ensaios. Entre as suas obras mais importantes estão “A Hora da Estrela”, "Água Viva" e “Laços de Família”. Nunca se candidatou à ABL. Ana Carolina Braga - FLICKR
Dalton Trevisan - (1925-2024) - Nascido em Curitiba, é famoso por seus livros de contos e já recebeu diversos prêmios. Avesso a entrevistas, chegou a ser apelidado de "Vampiro de Curitiba" (nome de um de seus principais livros) por gostar de viver recluso. Divulgacao
Vinícius de Moraes (1913-1980) - Escritor e dramaturgo, um dos maiores poetas brasileiros, com forte ligação na área musical. Fez letras para canções que se eternizaram, com reconhecimento internacional. O "Poetinha" se notabilizou por sonetos. O mais famoso: "Soneto de Fidelidade". Debora Spada - Flickr
Monteiro Lobato (1882-1948) - Escreveu um único romance ("Presidente Negro"), mas se consagrou como um dos maiores autores da literatura infanto-juvenil. Seus livros inspiraram produções na TV, no cinema e no teatro. Também fez contos e crônicas. Wikimedia Commons/Domínio Público
Antonio Candido (1918-2017) – Escritor, sociólogo e crítico literário, autor de vasta obra adotada nas universidades. Defendia o direito para todos de acesso à literatura, considerando a leitura uma necessidade para a boa formação. Não quis se candidatar. Disse que não gostava de participar de grupos. FLICKR
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – Para muitos o maior poeta brasileiro do século XX. Quando Getúlio Vargas assumiu uma cadeira na ABL, no Estado Novo (ditadura getulista), Drummond e o escritor Sérgio Buarque de Hollanda, pai do compositor Chico Buarque, se comprometeram a nunca ingressarem na casa. Arquivo Nacional/FLICKR
Érico Veríssimo (1905-1975) - Pai de Luís Fernando Veríssimo, foi um dos mais ilustres escritores do país. Livros como "O Tempo e o Vento" e "Olhai os Lírios do Campo" se popularizaram na teledramaturgia. Érico não se candidatou à ABL. Afirmou que era contra formalidades e jamais usaria fardão. Arquivo Nacional/Wikipedia
Luís Fernando Verissimo (1936-2025) – Modesto, afirmou não ter uma obra literária que merecesse a honra da imortalidade na academia, o que soou como ironia diante de tantos "imortais" que não são propriamente escritores. Ana Povoas/FLICKR
Mário Quintana (1906-1994) - Gaúcho de Alegrete, o "poeta das coisas simples" tentou três vezes, mas não foi eleito. Decepcionado, disse que a ABL estava politizada e que era até melhor ficar de fora, pois a academia "atrapalha a criatividade". Luís Fernando Veríssimo, seu conterrâneo, afirmou que, sem Quintana, o prejuízo era da ABL. Ricardo Timao /FLICKR
Vários escritores de renome da literatura brasileira que, apesar do reconhecimento do talento e da qualidade do texto, nunca foram contemplados como “imortais” da Academia Brasileira de Letras. Flip.com.br


Muita gente escreve poesia, mas pouca gente consegue, de fato, fazer poesia. Quem te arrebata?
Bom, para ficar só em Minas, Drummond, claro, infinitamente, e Adélia Prado. Ana Martins Marques é talvez o maior poeta da minha geração. Adoro, sou muito fã. E Ricardo Aleixo.

Olha só como BH está bem: Ricardo Aleixo é um gênio. O tipo de poesia que arrebata é aquele que surpreende, que puxa o tapete do leitor, que brinca com o sentido e o significado de uma maneira inédita. Para funcionar, ela precisa, pelo menos, parecer inédita. E acho que a gente faz uma poesia muito interessante no Brasil. Olha, sem puxação de saco, sobretudo em Minas.


O que é pura poesia no Brasil de hoje?
Muita coisa, não é? A gente faz, por exemplo, uma música única, muito poética. Também acho nosso carnaval pura poesia. O jeito que a gente joga futebol já foi pura poesia. Hoje em dia, ainda é nas várzeas, mais do que nos campos.


Fazer humor em ano eleitoral não deve ser fácil.
Porque o país está mais dividido, fraturado. E essa peça, por exemplo, tem uma característica que ela cria pontes um pouco, sabe? Ela não é uma peça só para o campo político por falar de poesia, de língua.

Agora, quando se fala de humor político diretamente, feito o que eu fazia no “Greg News”, é mais difícil, porque nessa época os ânimos estão muito acirrados. Eu acho que vai ser um ano bem duro para todo mundo nesse sentido.


Você lança em maio o livro “Aos pés da letra” (Cia. das Letras). Ele nasce do espetáculo?
É um desdobramento do “Céu da língua”. Quis mudar o nome para não ficar parecido com a peça. É em verbetes, então vai para mil lugares. É uma investigação em torno da vida íntima das palavras: vida e obra das palavras.

Está uma delícia continuar essa viagem. O lançamento ainda não foi, mas o livro já chegou pra mim. De repente eu levo para BH para vender depois da peça.

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“O CÉU DA LÍNGUA”
Espetáculo com Gregório Duvivier. Temporada de hoje (22/4) a sábado (25/4), no Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. Sessões esgotadas.

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