Da última vez em que conversou com a reportagem, em setembro do ano passado, o multi-instrumentista e cofundador do grupo Uakti, Paulo Santos, revelou que preparava novo disco, então intitulado “Terra”, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026.
Cá estamos em abril. Cumprindo a promessa, ele disponibiliza o álbum “ÁraTekoha” nas plataformas digitais, nesta quarta-feira (8/4). Inicialmente, no Bandcamp; a partir de amanhã, nas demais.
“É justamente o disco que se chamaria ‘Terra’”, avisa ele, que fará show de lançamento na quinta-feira (9/4), às 19h30, no Teatro Raul Belém Machado, com entrada franca.
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O álbum nasceu de reflexões sobre a urgência da preservação ambiental e o crescente distanciamento da humanidade em relação ao planeta, “questão especialmente sensível em Minas Gerais, marcada pela exploração mineral”, ressalta o artista.
Ao longo do processo de composição, a pesquisa se ampliou, incorporando também o ar como dimensão fundamental da vida e levando Paulo a investigar a forma como povos indígenas compreendem esses elementos da natureza.
Esse percurso aproximou o músico dos conceitos de “ára” e “tekoha” (pronuncia-se “tecorrá”), da língua guarani-kaiowá.
“Ára” não se refere apenas ao ar, mas à noção ampla de espaço-tempo, enquanto “tekoha” diz respeito ao modo de ser, à vida em sua dimensão cultural, ancestral e coletiva. A união dos termos aponta para o entendimento expandido de existência, em que território, tempo, natureza e espiritualidade são inseparáveis.
Cosmovisão
Inspirado por essa cosmovisão, que mantém relação contínua e não predatória com a Terra, o artista passou a refletir sobre a etnocosmologia indígena, ou seja, a forma como os povos originários compreendem a natureza e o universo, incluindo constelações e ciclos naturais.
“É para estimular pensamentos que levem à preservação e que façam a gente repensar nossa relação com o ambiente e retomar o olhar dos nossos ancestrais, dos povos originários”, afirma, ao explicar o novo trabalho. “Quando falo de Terra, não é só o Brasil. É o planeta inteiro”.
Com 11 faixas instrumentais, “ÁraTekoha” se divide em dois atos. No primeiro, explora-se o conceito de “ára”. São solos executados por Paulo em instrumentos peculiares, muitos deles associados à pesquisa sonora do Uakti, criados em parceria com a musicista e luthier Josefina Cerqueira, que já colaborou com o grupo.
Entre essas criações estão o “instrumento de duas águas”, semelhante ao utilizado pelo Uakti, mas com a possibilidade de duas pessoas criarem juntas harmonias com a água, e tubos sonoros feitos de PVC, com dimensões diferentes daqueles usados pelo grupo mineiro, o que altera tanto a forma de tocar quanto a sonoridade.
No segundo ato, as peças se voltam ao conceito de “tekoha”, com arranjos que buscam estimular o ouvinte a enxergar a Terra com outros olhos e a se reconectar com o ambiente ancestral. É o caso de “Vulcão”, que evoca o magma terrestre, e “Coda – Átomo”, que propõe uma reflexão sobre ciência, poder e responsabilidade humana diante do planeta.
“Sementes intergalácticas” relaciona os ciclos da vida ao ato de semear, enquanto “14º Baktun” parte do calendário maia para sugerir renovação no plano terrestre.
“O 13º Baktun foi o ciclo que se encerrou em 2012, quando muita gente achou que o mundo acabaria. O 14º seria, então, o período das transformações posteriores àquelas previsões”, explica Santos. “E, convenhamos, o mundo de fato passa por mudanças, com a crise climática e outras questões ganhando novas dimensões. Vamos ver o que vem daí”, acrescenta.
Metáfora
Outro elemento utilizado como metáfora é o ovo. “Ele representa a origem da vida. Mas também remete à ideia do ‘ovo da serpente’, que carrega o mal. Por isso eu trouxe ‘O ovo planetário’, para pensar a origem do universo”, diz.
Paulo reconhece que os temas de seu álbum não vão se impor de forma direta ao ouvinte. A ausência de letras abre espaço para múltiplas interpretações e sensações. Ao apresentar 11 faixas instrumentais, é como se oferecesse uma folha em branco e uma caixa de lápis de cor, “deixando as pessoas livres”, reforça o compositor.
FAIXAS
“Preâmbulo – A gruta (O profundo do ser)”
“As plêiades (Nokoatero Poero)”
“O ovo planetário”
“Terra (Tekoha)”
“Ar (Ára)”
“Trilobita III”
“Sete mares”
“Sementes intergalácticas”
“Vulcão”
“14º Baktun (Vibrações do universo)”
“Coda – Átomo”
“ÁRATEKOHA”
• Disco de Paulo Santos
• 11 faixas
• Disponível nas plataformas digitais
• Show de lançamento nesta quinta-feira (9/4), às 19h30, no Teatro Raul Belém Machado (Rua Leonil Prata, 53, Alípio de Melo). Entrada franca
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• Cícero no Sesc Palladium
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