As nossas relações com a natureza nas cidades, na maioria das vezes, aproximam-se das relações que estabelecemos com as coisas. Na exposição “Telúricas”, com curadoria de Uiara Azevedo, Iago Marques nos apresentou cenas do cotidiano. Algumas evocavam a rotina de um café da manhã, com diferentes olhares voltados às xícaras, aos gatos e aos passarinhos. Havia, nessas imagens, intimidade, respeito e variações poéticas que emergem da repetição.
Essas impressões diferem daquelas exploradas por Pierre-Auguste Renoir, que buscava perceber as cenas da vida cotidiana a partir das variações de cor e luz.
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Iago parece se aproximar mais da pintura como escrita de um diário íntimo, e nos convidou a lembrar da dimensão arqueológica das mesas de refeições preparadas por Daniel Spoerri. A natureza, assim, foi registrada por Iago Marques como uma experiência cotidiana da cultura.
Obras de Renoir, pertencentes à coleção do Masp, estão expostas na Casa Fiat de Cultura. A mostra de Iago Marques, na Piccola Galeria, encerrou-se no final de março.
Detalhe de obra de Brígida Campbell. Na exposição 'Sobre a terra', artista defende o cuidado com com as formas de vida
Há muitos jeitos de narrar o cotidiano. Neste momento em que relembramos o acidente do césio-137 em Goiânia, devido aos perigos nucleares que voltam a nos rondar diante das guerras, a relação com a natureza exige atenção diante da nossa capacidade de produzir lixo e morte, aspectos da necropolítica.
Durante as últimas duas décadas do século 20, artistas se preocuparam em investigar a relação com o lixo. No final da década de 1980, Siron Franco fez uma série a respeito do acidente radioativo. Descartes Gadelha fez imersão no lixão em Fortaleza e produziu a série “Catadores do Jangurussu”.
A exposição “Monturo”, de Gustavo Torrezan, em cartaz no Centro Cultural UFMG, com curadoria de Ana Paula Lopes, enfoca problemas ambientais da atualidade. Entre eles, destacam-se o acúmulo de lixo e a denúncia do uso de agrotóxicos no país que mais autoriza o uso de pesticidas em suas plantações. O artista afirma que as relações com a natureza são, também, processos de luta e conflito.
Queimadas
Assim, o Memorial das Ligas Camponesas e a Casa de Chico Mendes se afirmam como lugares de memória fundamentais na história das lutas e dos conflitos pela terra e pelo meio ambiente. No campo das artes, Zé Tarcísio, na série “SOS Litoral”, denuncia a especulação imobiliária, enquanto Frans Krajcberg evidencia a tragédia das queimadas.
Fabrício Fernandino, por sua vez, tensiona o desmatamento associado à criação de uma nova cidade, Belo Horizonte. Artistas e movimentos sociais se fortalecem, somando as suas reivindicações, transformando as nossas convenções nos mundos das artes.
Nesse contexto, Gustavo Torrezan firma seu compromisso com a denúncia das ações humanas, especialmente das grandes corporações, em relação aos (ab)usos da natureza.
Suas pinturas evidenciam o contraste entre a paisagem verde e a força da impressão a laser, que rasga a madeira, desmatando, alterando e ferindo a matéria, deixando como vestígio um buraco, marca do baixo-relevo.
Detalhe de pintura da Floresta de Fontainebleau, na França. Obra de Pierre-Auguste Renoir está exposta na Casa Fiat de Cultura
Wagner Leite Viana investiga plantas hoje nomeadas como PANCs, as plantas alimentícias não convencionais, por meio de práticas de pesquisa e replantio. Ao insistir em suas presenças e observar seus renascimentos, aproxima-se de uma proposta de convivência orgânica presente na roça de quilombo, a partir da valorização das trajetórias cíclicas do manejo ancestral, de acordo com Nego Bispo.
Praça Raul Soares
O mural do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, na Praça Raul Soares, foi realizado por artistas do MST, entre eles Andersom Augusto, DuArteTUGA, Eve Matines, Gabriel Filpi e Thiago Fonseca, a convite do Festival Cura, para a Escola de Artes João das Neves do MST. O tema “Terra, trabalho e pão” afirma que a luta pela terra é também a luta por alimentos mais vivos e livres de agrotóxicos.
Revolver a terra, arar a terra, compreender a terra a partir do subsolo: a natureza que renasce se transforma em adubo, em nutrientes, da morte à vida. Essas são algumas das inquietações de Brígida Campbell na exposição “Sobre a terra”, com curadoria de Bruno Vilela, no Sesi Museu de Artes e Ofícios.
A artista investiga as conexões entre raízes, a comunicação que sustenta a força e os mistérios da natureza, buscando compreender como ciência, poíesis e sagrado, articulados ou não, se relacionam com as plantas.
Da natureza como experiência da cultura à força da denúncia e das lutas sociais; da pesquisa de artistas, lavradores e catadores aos mistérios da reinvenção da terra e à potência dos saberes ancestrais, emerge uma compreensão ampliada da natureza. Nela, a pesquisa de Campbell, a transmissão de saberes e a dimensão sagrada coexistem com a pesquisa científica, abrindo caminhos para o cuidado com as mais diversas formas de vida.
“MONTURO E OUTROS TANTOS”
Trabalhos de Gustavo Torrezan. Centro Cultural UFMG (Avenida Santos Dumont, 174, Centro). Até 12 de abril. Funciona de terça a sexta-feira, das 9h às 20h; sábado, domingo e feriado, das 9h às 17h. Entrada franca.
“RENOIR NA CASA FIAT DE CULTURA”
Onze pinturas e uma escultura de Pierre-Auguste Renoir pertencentes ao Museu de Arte de São Paulo. Casa Fiat de Cultura (Praça da Liberdade, 10, Funcionários). Até 10 de maio. Funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h. Entrada franca.
“SOBRE A TERRA”
Trabalhos de Brígida Campbell. Sesi Museu de Artes e Ofícios (Praça Rui Barbosa, 600, Centro). Até este sábado (4/4), das 9h às 17h (entrada até 16h30). Entrada franca.
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* Carolina Ruoso é doutora em história da arte pela Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne e professora de teoria, crítica e história da arte na Escola de Belas Artes da UFMG.
