Livro de Roger Deff resgata momento histórico do hip-hop de BH
Rapper e pesquisador reconstitui a trajetória do pioneiro BH Canta e Dança, que reunia milhares de jovens da periferia na Praça da Estação, de 1986 a 1997
Livro do rapper Roger Deff é fruto da tese de mestrado apresentada pelo autor na Uemg - (crédito: Roger Deff/ Instagram/@israel)
crédito: Roger Deff/ Instagram/@israel
O projeto BH Canta e Dança foi realizado por cerca de 10 anos na Praça da Estação, entre 1986 e 1997, reunindo de 20 mil a 30 mil jovens por edição. Apesar de sua dimensão e importância para a consolidação do hip-hop em Belo Horizonte, quase não há registros do evento.
Essa lacuna motivou o rapper e pesquisador Roger Deff a escrever o livro “Negritude, hip-hop e território: BH Canta e Dança” (Editora Dialética), que será lançado nesta quinta-feira (19/3), na sede do coletivo Família de Rua.
Deff explica que, durante a pesquisa, encontrou apenas um capítulo da tese “A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude em Belo Horizonte”, de Juarez Dayrell, dedicado ao tema. A Belotur, apoiadora do festival, não possui arquivos sobre ele.
“Como um evento que acontece por quase 10 anos é totalmente esquecido? Isso mostra que construir memória também é poder”, afirma o autor.
O livro é fruto da dissertação de mestrado em artes de Roger Deff na Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg). Inicialmente voltado à identidade do rap mineiro, o projeto mudou de direção após entrevistas que revelaram a centralidade do BH Canta e Dança.
MC Pelé estava à frente do BH Canta e Dança, marco da cultura da periferia de BH realizado de 1986 a 1997. Pelé morreu em 2009, de câncer, aos 44 anos
Beto Novaes/EM/D.A Press
Idealizado por MC Pelé (1965-2009), belo-horizontino autor da canção “Namorar pelado”, o evento reunia anualmente, na Praça da Estação, jovens da periferia ligados aos bailes dos anos 1990.
BH Canta e Dança desempenhou papel importante na consolidação do funk e do rap na cultura da capital mineira após a chegada do hip-hop ao Brasil, em 1983.
Isso ocorreu bem antes do projeto Duelo de MCs, iniciado em 2007, que chamou a atenção do Brasil para o rap diferenciado feito em BH. Djonga e FBC, artistas de projeção nacional, surgiram nesse contexto.
Criado como ação solidária para arrecadar brinquedos, o BH Canta e Dança passou a ter edições temáticas. Houve homenagem a Nelson Mandela, após ser libertado da prisão em 1990, e ações contra as drogas e a violência.
“Embora muita gente diga que não era evento totalmente hip-hop, porque não tinha funk, havia a ocupação do espaço público e a mobilização social, com campanhas sobre respeito, cuidado e valorização. Isso é muito hip-hop”, argumenta Roger Deff.
Ellu: a primeira funkeira
Entre os entrevistados estão DJ A Coisa, DJ Joseph, DJ Roger Dee (Dentinho), Dulcineia do Carmo, Eduardo Sô, Flávio Pereira e MC Ellu. Aliás, Ellu é apontada por Deff como a primeira cantora de funk do Brasil.
Embora o pioneirismo seja atribuído a MC Cacau, lançada em 1994 pela produtora carioca Furacão 2000, Ellu já havia gravado o gênero em Belo Horizonte em 1992, caso da faixa “Tira a mão de mim”, do álbum “Fábrica de ritmos”.
MC Ellu, pioneira do funk nacional, gravou em 1992 a canção 'Tira a mão de mim' e participava do BH Canta e Dança
Facebook/reprodução
As entrevistas foram a principal base da pesquisa. Deff explica que artistas, público e produtores que participaram do evento priorizavam a experiência, não o registro da atividade.
“As pessoas não guardaram documentos, muitas já nem são tão conhecidas para conseguirmos o contato. Tudo o que temos são relatos. Se a gente não registra agora, essas histórias se perdem”, explica Roger Deff.
A dissertação foi entregue em 2021, mas a pesquisa se prolongou até 2025. “Não podia deixar isso só para mim e para a academia. O único registro sobre a história da chegada do hip-hop em BH é este livro”, ressalta Deff.
Detalhe da capa do livro 'Negritude, hip-hop e território: BH Canta e Dança'
Editora Dialética/divulgação
“NEGRITUDE, HIP-HOP E TERRITÓRIO: BH CANTA E DANÇA”
• Livro de Roger Deff • Editora Dialética • 156 páginas • R$ 89,90 • Lançamento nesta quinta-feira (19/3), às 19h30, na sede do coletivo Família de Rua (Rua Aarão Reis, 554, Centro). Entrada franca.