No final dos anos 1980, Fernanda Montenegro estrelou o monólogo “Dona Doida”, adaptação da obra de Adélia Prado assinada por Naum Alves de Souza, que se tornou um dos marcos da carreira da atriz. Agora, Pedro Paulo Cava presta homenagem à poeta mineira com o espetáculo que, guardadas as diferenças, mantém o nome daquele outro e estreia nesta sexta (6/3), às 20h, no Teatro da Cidade, onde fica em cartaz até o próximo dia 22.

Protagonizado por Lívia Gaudencio, o “Dona Doida” que o diretor e dramaturgo mineiro leva aos palcos transforma cerca de 60 poemas de Adélia (“A escrivã na cozinha”, “Com licença poética”, “O corpo humano”, “Asilo para senhoras idosas” e “A noiva”, entre eles) em narrativa cênica. Nisso a montagem se distingue da que estreou há quase 30 anos, pois Fernanda deu voz à obra da poeta sem que houvesse uma costura dramatúrgica.

Pedro Paulo Cava diz que verter poesia em prosa, de forma a revelar a trajetória de uma artista que fez do cotidiano sua matéria-prima, foi desafio árduo e solitário.

“Pegar uma obra como a da Adélia, ler e reler várias vezes e pinçar o que vai ser usado no espetáculo, frases, trechos, poemas inteiros, para contar a história de uma vida, é bem complexo”, diz.

Ele focou no que perpassa a poética da homenageada – o amor, a fé, a infância, a adolescência, o erotismo, a loucura e a velhice –, temas que dizem respeito à humanidade.

Desafio

Lívia Gaudencio assume o desafio de dar corpo e voz a diferentes personagens e fases da vida de Adélia: a filha, a esposa, a velha, a menina e, principalmente, a própria poeta.

O viés não é estritamente biográfico. “Não sabemos da vida dela inteira, então criamos uma Adélia ficcional, a partir de seus poemas”, diz Cava. Ele conta que uma chave de sua “Dona Doida”, trazida por Lívia, são cartas que a atriz escreveu para a poeta, “respondidas” pela seleção de textos.

A protagonista explica que sua correspondência com a poeta se relaciona com sua própria vida. Ela foi criada em Divinópolis, cidade natal de Adélia, e tem avó homônima da escritora.

“Estava em um momento muito angustiado em 2024 e me deu vontade de compartilhar isso com minha avó, então escrevi para Adélia. Cheguei a procurar parentes para saber como fazer para que essas cartas chegassem a ela, mas não tive retorno”, conta.

Lívia explica como as cartas foram incorporadas à montagem. “No decorrer da peça, leio trechos de várias delas, como se fosse interlocução minha com a obra da Adélia, como se buscasse nos poemas uma resposta para as angústias que exponho nessas cartas”, diz.

O fio condutor do monólogo é o diálogo entre uma atriz e a poeta, que responde por meio da construção ficcional.

Yara Tupynambá

Pedro Paulo Cava presta tributo também a Yara Tupynambá. Obras da artista plástica, de 93 anos, servem como referência na identidade visual do espetáculo.

O diretor e dramaturgo diz que ambas, Adélia escrevendo e Yara pintando, são expressões fortes da mineiridade.

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“DONA DOIDA”

Texto e direção de Pedro Paulo Cava. Com Lívia Gaudencio. Temporada desta sexta-feira (6/3) até dia 22/3, no Teatro da Cidade (Rua da Bahia, 1.341, Centro). Sessões às extas e sábados, às 20h; domingos, às 19h. Ingressos a R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia), à venda na plataforma Sympla.

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