Professor do Departamento de Filosofia da USP, Vladimir Safatle está nesta segunda (2/3) em BH para ministrar, às 10h, a aula magna “Fascismo como o nome correto”, na UFMG. O tema vai ao encontro de seu mais recente livro, “A ameaça interna – Psicanálise dos novos fascismos globais” (Ubu, 224 páginas).
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“É importante a gente falar muito claramente ‘o fascismo voltou’. Nomear o problema é uma parte importante da sua capacidade de saber como resolvê-lo”, diz Safatle ao Estado de Minas.
Você tem falado que o fascismo hoje não é uma regressão. O que é o fascismo de 2026?
A gente pode trabalhar com o conceito histórico ou o conceito estrutural. Histórico é um fato que ocorreu em um momento muito específico e não voltará mais.
Outra coisa é o fascismo estrutural, um risco imanente à nossa sociedade, sempre presente em situações de crise, como a que a gente vive hoje. Acho que, de fato, a gente deve falar muito claramente o fascismo voltou porque não vamos encontrar as mesmas características dos anos 1930.
Nenhum processo volta da mesma maneira. Nomear o problema é uma parte importante da sua capacidade de saber como resolvê-lo.
Também não podemos esquecer do Plínio Salgado, não é?
Aí tem duas coisas importantes. A primeira é que o Brasil tem uma longa história de fascismo nacional. Um dos maiores erros da universidade brasileira foi não ter entendido como o fascismo nacional era um eixo fundamental da formação das nossas sociedades.
O Brasil é um país que teve o maior partido fascista fora da Europa. A Ação Integralista Nacional teve 1,2 milhão de membros nos anos 1930, Plínio Salgado foi deputado por São Paulo até os anos 1970.
Acho que a gente apagou essa história porque ela mostra muito claramente como o colonialismo é a base da sociedade brasileira e como esse colonialismo nunca passou. A tese que defendo no livro é que o fascismo é a extensão das relações coloniais com os países centrais.
Todas as tecnologias de violência que nós conhecemos no fascismo foram aplicadas inicialmente nas colônias: extermínio, genocídio, campo de concentração, guerra de raças, massacre administrativo.
E o Brasil é um eixo central dessa história da violência colonial e esta nunca desapareceu da nossa sociedade.
Você também fala que a centralidade da identidade individual cria condições favoráveis às dinâmicas fascistas.
A gente pode falar que o fascismo voltou por algumas coisas muito básicas: a volta do expansionismo militar, das relações imperiais, da indiferença, da dessensibilização em relação ao genocídio e do argumento supremacista racial.
A gente está vendo isso todos os dias. Chega a ser absurdo que utilizar o termo fascismo seja, ainda, polêmico. O livro não é só uma análise macroestrutural, mas também uma análise da economia do fascismo, como ele transforma as pessoas, como você vai vendo as pessoas terem um tipo de comportamento antes nunca esperado.
Os indivíduos liberais naturalizam práticas segregacionistas. São indivíduos que entendem a sociedade como uma associação de pessoas que estão em completa concorrência e competição. Essa ideia faz com que você tenha uma visão da sociedade como uma guerra de todos contra todos.
Isso faz com que todas as relações de solidariedade se decomponham em situações de crises. Essa decomposição do corpo social exige que o afeto central da relação desse sujeito seja a dessensibilização. Se eu estou em relação de competição e concorrência com você, não posso sentir o seu fracasso ou em uma situação de vulnerabilidade.
Seu texto “O grande FMI universitário”, publicado em janeiro pela revista “Piauí”, suscitou um debate enorme. Você esperava tamanha polêmica?
De certa forma, sim, mas não sou daqueles que ficam reclamando de cancelamento. Acho que isso faz parte do debate de ideias, ele é duro mesmo. E não é uma coisa que apareceu com rede social. Vai ver como era o debate do Marx com Bakunin no século 19.
Era mais baixo ainda. Entendo porque isso toca profundamente as pessoas, a visão que elas têm de mundo, da maneira com que elas entendem que a justiça deve ser feita. O que eu quis foi levantar problemas dentro de uma matriz hegemônica de pensamento crítico atual que tem ganhado força na universidade global.
Acho que ela tem conquistas interessantes, mas também problemas muito estruturais que não são tocados. Acho muito estranho um tipo de comportamento que entende toda crítica como uma traição. Que entende toda crítica como um colocar em questão as lutas, as pessoas envolvidas. Há várias formas de fazer a crítica do colonialismo.
O pensamento decolonial é uma dentro dessas formas. Que tem, inclusive, alguns problemas sérios, que é uma dificuldade estrutural em saber dialogar com as tradições já estabelecidas nos países periféricos e o fato de que, na verdade, ela não foi uma articulação Sul-Sul.
Foi uma articulação Sul-Norte-Sul, quer dizer, foi a maneira com que as universidades anglo-saxãs organizaram o problema da herança colonial e exportaram. Negar isso é negar um processo histórico material de difusão de ideias.
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VLADIMIR SAFATLE
• Aula magna “Fascismo como o nome correto”. Nesta segunda-feira (2/3), às 10h, no auditório da Reitoria da UFMG (Avenida Antônio Carlos, 6.627, Pampulha). Entrada franca.
