No fim de 2025, “O inimigo do povo”, de Henrik Ibsen (1828-1906), ganhou adaptação assinada pelo grupo mineiro Teatro da Fumaça. Agora, outra obra do dramaturgo norueguês chega a Belo Horizonte em nova leitura. O Coletivo Gompa, de Porto Alegre, apresenta pela primeira vez na cidade o espetáculo “Instinto”, inspirado em “Brand”, com duas sessões gratuitas no Teatro Marília, neste sábado (28/2) e domingo (1º/3).

Escrita em 1865, a tragédia “Brand” acompanha um pastor que vive sob o princípio do “tudo ou nada”. Ele se recusa a fazer concessões e acredita que é preciso agir sempre de acordo com a própria consciência, ainda que isso custe caro.

É dessa figura que parte “Instinto”. O coletivo gaúcho desloca o conflito para o presente e transforma o líder inflexível de Ibsen em metáfora deste mundo marcado por extremismos. “'Brand' questiona esse líder obcecado, que vai atrás de seus ideais a qualquer preço. A gente traz isso para hoje e pergunta: quem são os nossos líderes? Por que a gente escolhe essas lideranças?”, afirma a diretora Camila Bauer.

De acordo com ela, o espetáculo dialoga diretamente com o atual cenário político. “A gente vive um período de muita polarização. As pessoas estão sempre defendendo interesses individuais. Existe muita raiva, muito ódio. Isso aparece na política, mas também nas relações humanas”, diz.

A atriz e produtora Fabiane Severo destaca que o debate proposto pela peça ultrapassa o campo político, atravessando diferentes esferas da vida social. “A gente fala de líderes em todas as áreas: política, religião, sociedade… É um pensamento que parece se atualizar o tempo todo. A cada ano, os acontecimentos fazem o espetáculo ganhar novas camadas”, observa.

Prêmio Ibsen Scope

Vencedor do prêmio norueguês Ibsen Scope, entre projetos de mais de 30 países, “Instinto” coloca os atores Alexsander Vidaleti, Fabiane Severo, Liane Venturella e Nelson Diniz em cena como macacos enjaulados. O elenco da montagem usa máscaras de látex criadas pelo artista plástico Victor Machado, do Rio de Janeiro.

“Os macacos são um contraponto ao humano”, explica Camila Bauer. “Os animais escolhem seus líderes pensando na sobrevivência do grupo. O ser humano, muitas vezes, escolhe por interesse próprio, mesmo que isso prejudique os outros.”

O espetáculo parte de uma pergunta emblemática: o que realmente nos diferencia dos animais? A partir desta provocação, a encenação combina teatro, dança, música ao vivo e artes visuais. Dois bailarinos dividem o palco com dois atores. Cada intérprete assume mais de um personagem nesta peça que aposta na multiplicidade e no jogo de camadas.

“É um grande desafio transmitir a obra de um autor tão importante sem ser literal. A gente busca trazer brasilidade, incorporar nossa cultura ao texto de um autor norueguês”, diz Fabiane. Essa escolha também se reflete na trilha sonora, executada ao vivo por Álvaro RosaCosta e Paola Kirst.

“Tem brasilidade na trilha, tem samba, tem tambor ao vivo”, destaca a atriz e produtora.

Prêmio Shell

Indicada ao Prêmio Shell de Teatro na categoria de Melhor Direção, Camila Bauer diz que o trabalho foi construído de forma coletiva. “A gente cria de forma colaborativa. Todo mundo propõe: elenco, músicos, bailarinos. A direção organiza o material. É um teatro de grupo, de diálogo aberto.”

Em Belo Horizonte, o grupo participa de intercâmbio com o coletivo mineiro Quatroloscinco. O encontro será realizado na tarde de sábado, fechado ao público. “Já conhecemos o trabalho deles e estamos animados para estar juntos na mesma sala”, diz Camila Bauer.

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“INSTINTO”

Peça do Coletivo Gompa. Sessões no sábado (28/2), às 20h, e domingo (1º/3), às 19h, no Teatro Marília (Avenida Professor Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia). Entrada franca, com ingressos disponíveis na bilheteria da casa.

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