Na última semana, o vídeo em que Brad Pitt e Tom Cruise lutam no terraço de um edifício semidestruído viralizou. Parecia trailer de megaprodução hollywoodiana. No entanto, tratava-se de um produto da inteligência artificial (IA). Nada ali era verdadeiro. Nem a luta, nem o cenário e muito menos os atores.


As imagens foram criadas pelo Seedance 2.0, novo gerador de vídeo em IA da ByteDance, empresa chinesa proprietária do TikTok. Por trás do vídeo está a mente do diretor irlandês Ruairi Robinson, informou o jornal The New York Times.

A pista de que se trata de algo artificial não está na qualidade técnica das imagens, mas nas falas absurdas durante a briga. “Você matou Jeffrey Epstein, animal!”, grita Brad Pitt em determinado momento. Com a viralização da peça, muita gente recorreu à ferramenta para criar finais alternativos e cenas inéditas de “Game of thrones”, “Breaking bad” e “Dragon Ball Z”.

Greve dos roteiristas

A novidade alarmou parte da indústria cinematográfica norte-americana, que acusou a ByteDance de permitir o uso não autorizado de material protegido em larga escala. O episódio reacendeu a memória da greve dos roteiristas em 2023, quando milhares de profissionais exigiram limites claros para o uso da IA em Hollywood.


“Eu tinha um chefe que costumava dizer: ‘Primeiro, o tiroteio. Depois a gente chama o xerife para organizar’. Estamos vivendo o momento do tiroteio com a chegada dessas ferramentas. Mas já começamos a ver a organização, por exemplo, com a regulamentação em debate no Congresso Nacional”, afirma Carlos Guedes, diretor do Festival Mundial de Cinema com Inteligência Artificial – WAIFF 2026.


A regulamentação que ele cita é o Projeto de Lei 2.338/2023, que classifica sistemas de inteligência artificial por níveis de risco (excessivo, alto, baixo), estabelecendo obrigações de governança.


Nesta sexta-feira e amanhã (27 e 28/2), em São Paulo, o WAIFF 2026 vai mostrar produções realizadas com auxílio de ao menos três ferramentas de inteligência artificial, propondo-se a ampliar a discussão sobre o papel da tecnologia no mercado audiovisual.


Além da exibição dos 38 finalistas, divididos nos gêneros animação, ação, emoção, fantasia e documentário, a programação oferece painéis, palestras, workshops e rodadas de negócios, sempre com foco nas implicações da IA.

'The gardner of ashes', do Studio Laffitte, foi selecionado na categoria Curta-Metragem: Drama do WAIFF 2026

WAIFF 2026/divulgação


Se há algo que o avanço da inteligência artificial escancara no cinema, não é apenas a mudança de ferramenta, mas de paradigma. Diferentemente da chegada do som, da cor ou do digital (transformações essencialmente técnicas), a IA invade o território da criação. Ela não apenas executa, mas sugere, reorganiza, simula e aprende padrões.


Defensores enxergam na tecnologia uma democratização inédita. O realizador independente pode gerar cenários complexos, testar movimentos de câmera e estruturar pré-visualizações que antes dependiam de equipes numerosas e orçamentos robustos.


Por outro lado, modelos são treinados a partir de vastos bancos de dados cuja origem nem sempre é transparente. Estilos são assimilados, replicados e recombinados. Surge, então, a polêmica: onde termina a referência e começa a apropriação? E, mais ainda: quem é o autor quando parte do processo passa pelo sistema algorítmico?


“Vejo a ferramenta como algo que pode ajudar a viabilizar projetos. Se a pessoa está fazendo um filme cuja trama se passa no Japão dos anos 1940, como recriar esse contexto? É muito complexo. Nesse caso, acredito que a pessoa pode assumir uma linguagem específica para esse recorte e contar, nessa parte, com inteligência artificial”, afirma Carlos Guedes.


“Até pouco tempo atrás, talvez o realizador recorresse à animação. Hoje, a IA permite uma outra leitura estética dentro do próprio filme, possibilitando construir esse material de forma muito mais concreta. Nesse sentido, a ferramenta está ajudando a resolver etapas da produção”, acrescenta. 

Riscos

Há, no entanto, uma inquietação a respeito da estética. Para os críticos do uso da IA, ferramentas amplamente difundidas tendem a produzir imagens reconhecíveis, com paletas e composições semelhantes. O risco, portanto, não seria apenas na área trabalhista, mas também simbólico.


“Ainda falta muita informação em relação à inteligência artificial”, pondera Carlos Guedes. “Muita gente está preocupada com a possibilidade de perder o emprego. No entanto, existem estudos prevendo a criação de funções que ainda não existem, como consequência da nova ferramenta.”


Para ele, o debate está apenas começando. “Não é necessariamente tudo que será feito com IA. A gente vai discutir para saber onde ela se encaixa”, conclui.

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FESTIVAL MUNDIAL DE CINEMA COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL


Filmes, mesas-redondas e workshops. Nesta sexta e sábado (27 e 28/2), das 9h30 às 17h, na Fundação Armando Álvares Penteado (Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo). Ingressos: R$ 325 (inteira, para um dia) e R$ 650 (inteira, para os dois dias), à venda na plataforma Sympla. Meia-entrada na forma da lei. Programação completa no Instagram (@waiff.brasil).

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