A Orquestra Filarmônica deverá desocupar todos os espaços da Sala Minas Gerais até 31 de julho. Este é o prazo previsto pelo acordo de cooperação técnica firmado na última sexta-feira (5/4) entre a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), proprietária do espaço, e o Serviço Social da Indústria (Sesi, o braço social da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), a que o Estado de Minas teve acesso.

 

A despeito do despejo iminente, o Instituto Cultural Filarmônica, que faz a gestão da sala e da orquestra, não foi procurado até ontem (8/4) pela Fiemg/Sesi, nem Codemig ou Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais para tratar do assunto.

 



 

Nota da Fiemg


Por meio de sua assessoria, a Fiemg/Sesi afirmou que o período de transição irá até julho, com a chegada de uma equipe para gerir o espaço. "Esclarecemos que não haverá transferência de recursos financeiros entre o Sesi-MG e a Codemig, sendo esta uma parceria institucional sem transferência de bens."

 

A nota afirma ainda que o Sesi-MG tem mais de "30 anos de expertise na gestão de diversos ativos culturais". E que investe anualmente R$ 10 milhões na produção de espetáculos e manutenção de seus espaços e formações culturais (Centro Cultural Sesiminas, com dois teatros; Museu de Artes e Ofícios, Centro Cultural Uberaba e Orquestra Sesiminas).

 

Temporada mantida

  

A agenda de 2024 da orquestra não sofrerá modificações, segundo o documento. "Após esse período, a Filarmônica continuará utilizando a Sala Minas Gerais, negociando diretamente com o Sesi-MG o calendário de uso do espaço, garantindo que este continue a ser um palco para atividades culturais inclusivas e diversificadas", afirma a assessoria da Fiemg.

 

O próximo concerto da Filarmônica na Sala Minas Gerais será nesta quinta-feira (11/4), às 20h30. Com o diretor artístico e regente Fabio Mechetti à frente, a orquestra vai executar a "Sinfonia nº 7", de Bruckner e o "Dueto-concertino", de Richard Strauss. Esta peça terá como solistas o clarinetista Marcus Julius Lander e o fagotista Adolfo Cabrerizo, chefes de naipe da orquestra. O concerto será transmitido pelo YouTube e o programa será repetido na sexta (12/4).

 


Reação nas redes

 

Após nota de esclarecimento publicada em seu site e redes sociais, em que informou "não ter participado das negociações" e que "não tomou prévio conhecimento" do acordo, a Filarmônica recebeu apoio tanto da classe artística quanto da sociedade civil.

 

"Qualquer tentativa de desmonte será uma das maiores máculas que uma gestão pública poderia levar", escreveu Marco Arakaki, ex-maestro associado da orquestra. "Incrível como no Brasil quem mais produz e trabalha em alto nível é sempre o mais constantemente ameaçado pelos 'homens públicos' que falam em 'eficiência' sem ter a mínima noção de como se produz uma grande temporada sinfônica", destacou o compositor e pianista André Mehmari. "A Filarmônica e a Sala Minas Gerais são um orgulho da cultura mineira", publicou o Grupo Corpo.


Carta aberta

 

Iniciativa da sociedade civil, o abaixo-assinado "Contra o desmonte da Filarmônica de Minas Gerais", no site change.org, foi criado neste domingo (7/4). Até a conclusão desta edição, o documento havia colhido quase 21 mil assinaturas.

 

O Fórum Brasileiro de Ópera, Dança e Música de Concerto (FB-ODM), que reúne 110 instituições em 18 estados e o Distrito Federal, publicou carta aberta destinada ao secretário de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Leônidas Oliveira, afirmando que o acordo de cooperação "ameaça interromper um projeto cultural virtuoso, de projeção nacional e internacional, que deveria receber do governo do estado de Minas Gerais a devida proteção jurídica e toda garantia de sua continuidade e desenvolvimento". 

 

Presidente da Fiemg publica vídeo sobre assunto; ICF contesta

 

Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) publicou no Instagram vídeo sobre o assunto afirmando que, “no final do ano passado, o governo de Minas Gerais nos procurou e que a própria Filarmônica não tinha interesse na manutenção do contrato com a Sala Minas Gerais”. Informa ainda que “nas tratativas entre Codemge e Sesi-MG, mantivemos informado o conselho do instituto a respeito destas tratativas”. Por nota, o Instituto Cultural Filarmônica esclarece que “nunca houve intenção de entregar a Sala Minas Gerais a qualquer outro gestor.” Informa que “o ICF tem garantido, pelo Contrato de Gestão, o controle da sala até dezembro de 2024, na expectativa, como sempre o foi, de que uma renovação do contrato mantivesse a premissa lógica e original de que a Sala Minas Gerais é a sede, a casa da Filarmônica, e a instituição qualificada para sua gestão, por força do resultado do edital público lançado pelo governo de Minas Gerais em 2020.”

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