Um episódio pessoal traumático foi a fagulha que acendeu o mais recente romance da escritora Marta Barbosa Stephens: a morte, em 2008, de seu companheiro, que foi seu primeiro namorado, com quem se relacionava havia 12 anos e de quem estava grávida. Ela precisou vivenciar o luto, se recompor e reconstruir a vida – casou-se novamente e teve outro filho – para processar e escrever "As viúvas passam bem".

Recifense atualmente radicada na Inglaterra, Marta diz que o tema da viuvez e da reconstrução de quem sofreu a perda de um ente querido a acompanhava desde o ocorrido e "pediu" para ser externado após 10 anos. O livro foi um dos finalistas do Prêmio Leya em 2021 e foi publicado no Brasil no final do ano passado, pela Folhas de Relva Edições.



Apesar de ser uma história que lhe pertence, como diz, a escritora destaca que este que é seu terceiro livro – sucede o volume de contos "Voo luminoso de alma sonhadora" (2013) e o romance "Desamores da portuguesa" (2018) – não é uma obra de autoficção. Para compor a trama de "As viúvas passam bem", ela também recorreu à lembrança de uma história que ouvia quando criança no bairro onde morava, na capital pernambucana.

Pequenas vinganças

Essa história dizia respeito a duas mulheres que perderam seus maridos, que se mataram um ao outro em um duelo de faca e revólver, no corredor de um prédio de uma vila de funcionários públicos no subúrbio do Recife. As viúvas, vizinhas, se tornaram, então, inimigas, alimentando uma pela outra um ódio que se manifestava por meio de pequenas vinganças, algo patéticas e desesperadas.

Marta alerta que essa história era um "patrimônio público" de seu bairro, mas que, no livro, é totalmente ficcional. "Já vi resenhistas dizendo que é baseado em fatos reais vivenciados na minha infância, mas não é. Meus pais me falavam dessas duas mulheres que ficaram viúvas porque os maridos se mataram, mas isso aconteceu antes de eu nascer, no início dos anos 1970", conta.

Ela diz que criou as duas protagonistas do romance – Margarete e Guiomar – sem nenhuma preocupação em referenciar as personagens reais. "Não sei a história delas, não fiz nenhuma pesquisa, quer dizer, minhas personagens não têm nada dessas duas. Não quis nem saber dessas mulheres de quem eu ouvia falar, só quis usá-las como ferramenta para criar uma ficção", diz.

Questões psicológicas

"As viúvas passam bem" acaba se situando em uma coordenada limítrofe entre a memória, a autobiografia e a ficção, de acordo com a autora. "A invenção predomina, mas usei, sim, muita coisa da minha experiência no processo do luto, colocando isso nas personagens, principalmente as questões psicológicas. Mas não tem nada ali que seja exatamente um reflexo de mim", destaca.

Uma resenha publicada no jornal literário "Rascunho" fala da exploração das contradições humanas como um ponto de interesse da obra. Marta assente: "São duas mulheres que amaram muito seus maridos, seguem amando, mas acreditam que a saída do sofrimento está no ódio. Elas passam a buscar meios de acabar com qualquer chance de felicidade uma da outra. Elas tentam tapar o buraco do amor com a argamassa do ódio", diz.

Marta aponta como algumas de suas referências importantes na literatura nomes como Machado de Assis, Osman Lins - que foi tema de seu mestrado em crítica literária, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) – e os norte-americanos James Baldwin e Anne Tyler. É no estilo desses autores, adotado por ela, que "As viúvas passam bem" estabelece um diálogo com seu romance anterior.

Narrador machadiano

"Tenho uma paixão pelo narrador difuso, bem machadiano, em que não se pode confiar. Nos meus dois romances trabalho com isso. É tudo bem individualista por parte de quem está contando a história, meio sem escrúpulos mesmo, mas é em prol da narrativa. É um papel do leitor desconfiar do que está sendo dito, é uma função que a gente dá a ele, de não ficar na passividade", comenta.

Ainda saboreando as boas críticas que o livro tem recebido, Marta já está às voltas com a produção de um novo romance. A obra, conforme aponta, vai tratar da velhice, e para isso toma como cenário um asilo na Inglaterra que atende a aristocracia londrina. "A narradora é uma brasileira, imigrante, que vai trabalhar nesse asilo, o que também se relaciona com uma experiência desastrosa que tive", conta.


TRECHO

"O que descrevo a seguir, permita-me alertar, tem origem no olhar de uma menina de 13 anos, abobalhada pelas descobertas de sua idade e curiosa por tudo o que não lhe era familiar. Possivelmente, muita coisa foi fantasiada. Não posso me assegurar de toda a verdade com tantos anos de distância. Ainda mais por ter sido uma adolescente presa no mundo paralelo das histórias e personagens que criava,
e só eu via".

"AS VIÚVAS PASSAM BEM"
• Marta Barbosa Stephens
• Folhas de Relva Edições (124 págs.)
• R$ 58,90 e R$ 35,90

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