Tanto Ailton Krenak quanto Conceição Evaristo ressaltaram a relevância de suas conquistas em termos de representatividade para indígenas e negros -  (crédito: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press -  - 5/11/22)

Tanto Ailton Krenak quanto Conceição Evaristo ressaltaram a relevância de suas conquistas em termos de representatividade para indígenas e negros

crédito: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - - 5/11/22

O primeiro indígena não em uma, mas em duas academias. Em março, quando tomou posse na Academia Mineira de Letras (havia sido eleito em junho de 2022), Ailton Krenak afirmou que tinha recebido um "presente" no ano em que alcançou os 70. Naquele momento, não tinha como saber que o presente viria em dobro, com um peso ainda maior.

 

"Não cultivo uma experiência literária. Minha experiência de publicar livros e o impressionante sucesso editorial não foram um plano meu. Mas me aproximou de grandes autores contemporâneos e me fez participar de debates públicos interessantes. Então, me sinto premiado", disse, na época, ao Estado de Minas.

 

 

Se a votação para a AML havia beirado a unanimidade (Krenak recebeu 36 votos dos total de 39), na Academia Brasileira de Letras Krenak venceu, em outubro, com 23 votos, contra 12 para Mary del Priore e quatro para Daniel Munduruku. Foi uma das campanhas mais disputadas dos últimos tempos, com 15 candidatos.

 

E também polêmica: às vésperas da votação, Munduruku, também um escritor indígena, acusou Krenak de traição. Argumentou que ambos tinham combinado de não se enfrentar e que o mineiro, que era o favorito, havia se inscrito para o pleito primeiro do que ele. Munduruku havia tentado uma vaga em 2021 na ABL, época em que seu nome foi defendido por uma centena de intelectuais, em abaixo-assinado que teve Krenak como um dos signatários.

 
REPRESENTATIVIDADE

 

Após a eleição, o mal estar arrefeceu. "Águas passadas", afirmou Munduruku. A chegada de Krenak, o primeiro indígena na ABL, foi apontada como um sinal de que a tradicional instituição, hoje com 126 anos, entendeu o peso da representatividade no mundo contemporâneo.

 

“Para o Ailton, ter um assento na ABL não é uma ambição pessoal. Mas para a pessoa que se constitui no sujeito coletivo, esse gesto é para abrir a porta dessas instituições, assim como as cotas abriram as vagas nas universidades e hoje temos mais de 60 mil indígenas. Alguém tem que começar isto", como bem disse Krenak ao Estado de Minas. A posse na ABL ainda não foi marcada, mas será em 2024.

 

Em um ano de primeiras vezes para autores mineiros, houve também a de Conceição Evaristo. Em setembro, ela foi anunciada como vencedora do troféu Juca Pato de Intelectual do Ano, tornando-se a primeira mulher negra a vencer a premiação, como ela mesma observou, ao receber o troféu concebido pela União Brasileira de Escritores (UBE), em novembro, no Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira).

 

"Acho que (o troféu) tem várias nuances. Primeiro, para minha promoção pessoal isso é muito bom. Para além disso, eu não posso deixar de observar – e isso pode até parecer um pouco de ingratidão – que num prêmio que ocorre desde 1962, é a primeira vez que uma mulher negra é laureada", afirmou.


POESIA NO JABUTI

 

Mais tradicional prêmio literário nacional, o Jabuti continuou apostando na poesia. A exemplo do que ocorreu na edição de 2022, a 65ª da premiação também escolheu uma obra poética como livro do ano: “Engenheiro fantasma”, de Fabrício Corsaletti (também eleito, obviamente, como melhor livro de poesia de 2023). Autor de mais de 100 livros, o escritor Pedro Bandeira, de 81 anos, foi homenageado como Personalidade Literária de 2023.

 

Em suas 21 categorias, entre literatura, não ficção, produção editorial e inovação, o Jabuti, divulgado no início deste mês, também premiou “Extremo Oeste”, de Paulo Fehlauer, como autor estreante, e Ruy Castro pelo romance “Os perigos do imperador: um romance do Primeiro Reinado”.

 

Em ficção, os demais premiados foram “Educação natural: Textos póstumos e inéditos”, de João Gilberto Noll (conto); “Por quem as panelas batem”, de Antônio Prata (crônica); “Dentro do nosso silêncio”, de Karine Asth (romance de entretenimento); “Óculos de cor: Ver e não enxergar”, de Lilia Moritz Schwarcz e Suzane Lopes (juvenil); “Doçura”, de Emilia Nuñez e Anna Cunha (infantil); e “Mukanda Tiodora”, de Marcelo D’Salete (quadrinhos).

 

Esta edição do prêmio ficou marcada pela inclusão – e depois desclassificação – de ilustração feita por inteligência artificial. A edição de “Frankenstein” do Clube de Literatura Clássica foi ilustrada pelo designer Vicente Pessôa com ajuda da ferramenta Midjourney, que estava listada nos créditos, mas os jurados disseram não ter se dado conta disso. Depois da repercussão do caso, organizadores do Jabuti decidiram retirar a indicação de “Frankenstein”.

 

NOBEL PARA A NORUEGA

 

“Sempre soube que escrever pode salvar vidas, talvez tenha salvado também a minha. E também se a minha escrita pudesse ajudar a salvar a vida de outras pessoas, nada me faria mais feliz". Foi desta maneira que no início deste mês, em Estocolmo, o escritor norueguês Jon Fosse, Nobel de Literatura em 2023, abriu seu discurso oficial na Real Academia Sueca, onde recebeu o prêmio.

 

Aos 64 anos, Fosse é um nome muito conhecido no teatro – um dos dramaturgos mais encenados na Europa, seus textos já tiveram em torno de 900 produções em todo o mundo. É considerado Beckett do século 21. Mas sua obra, traduzida para 40 idiomas, se desdobra também em romances, ensaios, poemas e livros infantis. Com o Nobel, sua presença nas livrarias brasileiras vai aumentar. Lançada no Brasil em setembro pela Cia. das Letras, poucas semanas antes do anúncio da Academia Sueca, a novela "É a Ales" acompanha um casal separado pela água: Signe espera há duas décadas pela volta do marido, Asle, que desapareceu com seu barco.