Todos os dias, no prédio em que eu moro, nos damos bom dia, sorrimos uns para os outros e, rotineiramente, ajudamos com as compras ou seguramos a portado elevador. Fazemos isso de modo amistoso e sem apresentar nossas convicções pessoais ou questionar a opção filosófica ou religiosa de ninguém. A convivência genuína acontece antes que saibamos o que cada um pensa sobre o mundo.

Há algumas semanas, uma discussão no grupo de WhatsApp do condomínio me fez pensar sobre isso. No grupo virtual, por certo, estão as mesmas pessoas com as quais cruzamos nos espaços comuns, mas que, diante de uma divergência,parecem ter certa dificuldade para manter a cordialidade rotineira do elevador. Me manifestei no sentido de que somos vizinhos e, assim, os primeiros a se socorrerem mutuamente, e que isso deve ser mais relevante que opções que, em última instância, dizem respeito ao modo como cada pessoa deseja conduzir sua própria vida.

O filósofo Emmanuel Levinas usa um exemplo que poderia ter saído do meu elevador. Numa série de conversas publicadas com o título Ética e Infinito, ele afirma que, se não houvesse entre nós algo anterior a todas as relações humanas,nem sequer diríamos, diante de uma porta aberta, “Primeiro o senhor!”. Para Levinas, o outro se apresenta pelo rosto, e o rosto tem sentido antes de qualquer contexto: antes da profissão, do papel social ou daquilo que a pessoa pensa sobre o mundo. Por isso o bom dia vale menos pelo que dizemos do que pelo fato de nos dirigirmos a alguém. É preciso falar de alguma coisa, da chuva ou do tempo, pouco importa. Saudar alguém, diz ele, já é responder por ele. E é exatamente isso que fazemos, sem pensar, todas as manhãs.

Levinas nos lembra que o próximo não é apenas quem está perto de nós no espaço. A proximidade, para ele, é a responsabilidade que temos uns pelos outros. No grupo de WhatsApp, o vizinho continuava ao lado, mas passou a ser lido, naquela discussão, pela posição que defendia. Ele parou de ser a pessoa para quem seguramos a porta do elevador para ser resumido à opinião da qual discordamos.

E querem saber a verdade? Eu não me excluo da dificuldade de ter que lidar com opiniões que divergem das minhas. Acho que todos nós, se olharmos sinceramente para nosso íntimo, também tem. É mesmo desconfortável ter que admitir, sobretudo quando acreditamos estar do lado certo, que há outras versões sobre a realidade que avaliamos. E mais, que elas não só merecem ser ouvidas, como também consideradas seriamente em um debate.

Mas, para que isso aconteça, é preciso que reconheçamos o outro como interlocutor e aceitemos que a discussão também pode nos fazer rever o que pensamos. Não porque o outro tenha, necessariamente, razão, mas porque a simples presença dele já tira o meu pensamento do lugar confortável em que estava. Mesmo que, ao final, ninguém mude de ideia, a divergência não nos dispensa de cuidar do modo como tratamos o outro.

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Um dia após as eleições presidenciais, essa reflexão me parece ainda mais necessária. Pois, seja na alegria da vitória, seja na decepção da derrota, precisamos lembrar, ao lado de Levinas, que o outro não se resume a uma característica, como o voto que depositou na urna. Hoje, seja dentro de nossas casas, no elevador, nas ruas ou no trabalho, continuaremos a encontrar as mesmas pessoas que pensam de modo diferente do nosso. E nossa responsabilidade por elas permanece absolutamente inalterada... .

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