Outro dia, estava revendo umas fotos antigas de família quando fui tomada por uma dor profunda, mas não sabia explicar ao certo de onde vinha. Algumas imagens me tocaram de tal maneira, que passei o resto do dia angustiada. Contei o fato a um amigo e ele me indicou um livro que conseguiu colocar em palavras exatamente o sentimento pelo qual fui invadida naquele dia.


Em A Câmara Clara, o último livro que publicou em vida, Roland Barthes analisa o que é uma fotografia e o que a distingue das outras imagens. Na primeira parte, ele observa fotografias “do mundo”, tentando entender o que nos atrai nelas. Mas é na segunda parte, impulsionado pela recente perda de sua mãe, que o ensaio se torna pessoal e emocionante.


O autor parte da perspectiva do spectator (aquele que olha). Ao examinar a maneira como algumas imagens o afetavam, Barthes distinguiu dois modos de nos relacionarmos com a fotografia. O studium aparece quando olhamos uma imagem a partir de nossas referências culturais ou de algum interesse histórico, político ou estético. Podemos gostar ou não do que vemos. Há, porém, imagens em que um detalhe interrompe essa leitura mais geral e nos atinge pessoalmente. É o punctum.


Para Barthes, o Punctum fura o código comum, que circunda o mero gosto, para nos tocar em algum lugar no qual o generalizável não alcança. É algo de tal maneira intraduzível e que nos toca em lugar único e profundo. Ele é individual de um tal modo que é possível que duas pessoas se sintam impactadas pela mesma cena, mas por razões completamente diversas, e, ainda, outras que não sintam nada.


Na segunda parte do livro, ao vasculhar velhos retratos em seu apartamento em busca de uma imagem capaz de capturar quem sua mãe fora, Barthes finalmente encontra o que procurava em uma fotografia amarelada de 1898, que chamou de A Fotografia do Jardim de Inverno.


O autor optou por não reproduzir no livro a fotografia na qual reconhecera a mãe que acabara de perder. Nós não a compreenderíamos como ele, pois o punctum é pessoal e intransferível. Para nós, ela seria apenas mais uma fotografia. Para ele, traduzia toda uma existência.


Se Barthes tivesse parado por aí, já teria sido suficiente para eu compreender por que algumas fotografias — e não outras — haviam me ferido. Mas ele seguiu adiante. O punctum explicava por que certas imagens me atingiam, mas ainda faltava entender por que aquela dor parecia vir da própria sensação de experimentar o tempo passando.


Para Barthes, a fotografia nos remete ao “isso foi”. Segundo ele, uma pintura pode ser pura invenção, uma foto analógica não. A fotografia certifica que algo esteve ali, diante daquela câmera, em um instante determinado no tempo. Ela não recupera o passado, mas atesta que aquilo existiu.


Por causa disso toda fotografia carrega uma relação íntima com a finitude das coisas. Se por um lado ela certifica que algo aconteceu, ao mesmo tempo, ela comprova que esse algo já não é mais assim. A fotografia nos atesta que o instante fotografado é irrecuperável e que o sujeito fotografado, ainda que vivo, já foi atravessado pelo tempo e segue em direção ao seu fim.


Talvez a angústia não nomeada que senti veio dessa certeza de que o tempo atravessa cada segundo da nossa existência e que, por mais que não o vejamos passar, ele é implacável.

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Parece uma conclusão terrível, mas não é! Pois é exatamente essa percepção sobre a passagem do tempo, exposta sem cerimônia pela fotografia, que nos remete à responsabilidade com o presente. Esse luto antecipado trazido pela imagem nos convida ao afeto e à coragem de amar, no presente, aquilo que o tempo já começou a levar. .

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