Todas as vezes que saio de casa para ir até a faculdade, há um trecho na Avenida Nossa Senhora do Carmo, próximo à bifurcação para o Sion, onde o trânsito trava toda tarde. Sempre fico ali parada pelo menos cinco minutos, completamente absorta em meus pensamentos. É como se eu estivesse ali fisicamente, mas não minha alma. A mão toca o volante automaticamente, enquanto os pensamentos vagam por lugares distantes, de modo que, muitas vezes, chego ao destino sem me lembrar ao certo como cheguei.

Na semana passada, ao olhar para um carro ao lado, notei uma pessoa, de uns 50 anos, mirando também o nada. Parecia, como eu, estar habituada ao percurso e perdida em seus pensamentos. Essa cena me fez pensar no quanto vivemos a vida automatizados, realizando tarefas sem nossa presença nelas.

A direção de um carro é um exemplo banal, mas pensemos na quantidade de coisas que fazemos mecanicamente. E meu questionamento foi o que seria preciso para que qualquer um de nós, preso ali, acordasse de repente para a própria vida?

Pensei que talvez bastasse um diagnóstico. Se alguém nos dissesse que nos restam poucos meses de vida, todas as avenidas obstruídas se abririam para nós. Conseguiríamos perceber a luz da manhã no retrovisor. O cheiro do orvalho. Veríamos a mulher da banca de jornal, que até então nos parecia invisível.

Quem sabe, enfim, não nos sentiríamos confortáveis em nossos próprios corpos. O mundo permaneceria o mesmo: o mesmo trânsito, mesma esquina, mas com cores que nunca havíamos visto antes. Quem sabe, da possibilidade genuína da morte, não nasça uma nova forma de ver a vida?

Tolstói leva essa intuição ao limite quando narra, em uma de suas histórias mais duras, a vida de um homem comum, absorvido tanto por sua rotina, que só percebeu o que significa viver quando a morte se anunciava dentro dele. É exatamente o adoecimento que faz cair a ficha e lhe devolve, mais tarde, os rostos de pessoas queridas e as manhãs, que durante muito tempo permaneceram invisíveis. É o padecimento que mostra para Ivan que a vida que levou pode não ter sido aquela que ele desejava profundamente.

Para Tolstói, é pela lente da própria morte que a vida ganha nitidez. A finitude aparece como condição da vida, o que muitas vezes não conseguimos perceber, principalmente quando vivemos como se fôssemos eternos, absorvidos na vida cotidiana.

Na literatura, foi preciso um diagnóstico. Mas será que todos nós precisamos do diagnóstico médico para tomarmos efetiva consciência da nossa própria finitude ou podemos aprender a viver como se a morte fosse algo que pode acontecer agora, e não somente no futuro? Não negamos a irreversibilidade da morte, mas tendemos a concebê-la na perspectiva de que o outro morre, não eu.

A verdade é que o diagnóstico sobre nossa finitude nós já temos, o que falta é levar esse saber a sério antes que ele se torne urgente. Claro que a morte não precisa estar a todo tempo presente em nossos pensamentos para que nos possibilite ver com mais nitidez. Bastaque, de vez em quando, deixemos que nossa própria extinção entre no nosso pensamento com verdade.

Sabe o que me incomodou, presa na Nossa Senhora do Carmo? O temor de atravessar toda uma vida sem ter estado presente nela, e não propriamente a ideia da minha própria morte. Me inquietou a imensa quantidade de vezes em que fiz duas ou mais coisas ao mesmo tempo, sem ter estado de fato em nenhuma delas. Situações em que agi burocraticamente, quando deveria ter sido mais aberta.Momentos em que “entrei para dentro de mim”, sem perceber que havia um mundo radiante ao meu redor.

Não são todos os dias que eu vejo o sol no retrovisor ou a moça da banca, mas geralmente os percebo naqueles dias em que coloquei a morte para me ajudar a compreender a vida com mais clareza.

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