Por todos os lados, ouvimos as pessoas nos falarem sobre autoconhecimento e o quanto ele é importante para que possamos experimentar a felicidade possível nessa vida. Somos abarrotados por livros, palestras e terapeutas nos dizendo sobre seu valor. Mas o que as vezes percebo é que estamos todos, de algum modo, repletos de angústias que não sabemos nomear.
Acredito que alguns de nós desejam, verdadeiramente, ter acesso ao que de mais genuíno há em si, aquilo que nos singulariza no mundo. Contudo, quase ninguém, de fato, o alcança, pois não basta olhar para dentro da gente para encontrar as respostas que procuramos, é preciso saber dar o nome certo para o que sentimos, senão vira confusão.
Tenho um antigo amigo e, diga-se de passagem, portador de uma inteligência acima da média, cuja história compartilho aqui com cuidadosa discrição. Temos sido amigos por muitos anos e sempre vi nele genuína vontade de se compreender: estuda, vai a congressos e sempre fez terapia. Foram anos levando a sério a frase escrita no Templo de Apolo, em Delfos, sobre a necessidade de conhecermos a nós mesmos.
Apesar de todo esforço, ele sempre me diz que, em sua visão, não sente que se conhece como gostaria, e que os anos de dedicação não haviam feito dele um homem mais lúcido ou mais feliz. Tenho a intuição de que falta ao meu amigo, assim como à maioria de nós, a capacidade de colocar em linguagem aquilo que realmente sentimos. Às vezes; a desordem é tanta que chamamos pelo mesmo nome sentimentos antagônicos.
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No Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein escreveu uma de suas frases mais citadas, na qual afirmava que os limites da nossa linguagem significam os limites do nosso mundo. A passagem é interessante porque ela tem uma dupla direção.
De um lado, ela nos projeta para o mundo externo, querendo com isso significar que aquilo que eu não posso dizer sobre o mundo, também não posso conhecer do mundo. E, de outro, nos remete para dentro de nós mesmos, já que o mundo concebido por Wittgenstein é também aquele habitado por quem vive nele.
Ao sermos remetidos para o mundo interior, perceberemos que ele tem uma gramática que lhe é muito própria e, onde essa gramática falta, o que resta é um amontoado de sentimentos desordenados. É exatamente para dar uma certa ordem nesse tumulto que escrevemos em diários, saímos com amigos em quem confiamos e fazemos terapia. Esses são meios que usamos para tentar separar e compreender os sentimentos, transformando a sensação bruta de angústia em um objeto analisável.
Quando ainda não conseguimos nomear o que sentimos, não são poucas as vezes que dizemos que estamos aflitos. Entretanto, depois de nomeada, a aflição ganha forma e contorno para que nós tenhamos a oportunidade de entender e, se necessário, contestar.
Mas para que sejamos eficientes nessa tarefa, precisamos ter a linguagem que nos permita diferenciar os variados objetos de angústia. Retomando meu amigo, eu tenho certeza de que ele não sente pouco, ao contrário, sente até demais, mas o faz sem a linguagem adequada. Percebo que não é raro ele confundir luto com culpa, culpa com vergonha e vergonha com medo de julgamento das outras pessoas.
Esse problema não é só do meu amigo, mas de todos nós, razão pela qual a distinção aqui não é meramente retórica, pois cada palavra que conseguimos encontrar para nomear nossos sentimentos pode ajudar a reorganizar dentro de nós a experiência vivida.
Saber delimitar os diferentes sentimentos pode nos auxiliar a estabelecer uma fronteira mais precisa entre a angústia sem objeto, que nos embaralha, e a angústia que podemos nomear e analisar. Por isso o autoconhecimento precisa também ser pensado como um trabalho de linguagem, que deve ser traduzido no árduo esforço de nomear, cada dia com mais precisão, aquilo que nos aflige.
Obviamente que saber dar nome ao que sentimos não nos protege da dor, nem poderia, mas ter linguagem para organizá-la pode ser uma grande ferramenta para não andarmos em círculos na doce e difícil aventura de irmos ao nosso encontro.
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