Pegue um carro de aplicativo em qualquer capital brasileira e tente encaixar o motorista nas velhas categorias do trabalho. Ele não é operário, porque não tem patrão. Também não é burguês, porque o único meio de produção que possui é um carro financiado em 48 parcelas. É outra coisa. E o Brasil ainda não aprendeu a dar nome a ela.

Durante muito tempo, a palavra empresário carregou uma imagem pesada: o dono da fábrica, das máquinas, do capital acumulado. Esse retrato explica pouco o país de hoje. O empreendedor brasileiro não começa com capital. Começa com uma ideia e um celular, vendendo marmita no bairro, abrindo um CNPJ para emitir a primeira nota. O único meio de produção que ele tem, na maioria das vezes, é ele mesmo: o tempo, o talento, a coragem de tentar.

Schumpeter já dizia, há um século, que empreender é inovar, e não possuir. O capitalista empresta o dinheiro; o empreendedor enxerga a oportunidade e faz acontecer. É o que vejo em quem trabalha de forma autônoma, controlando o próprio tempo, sendo criativo e resiliente: gente que inventa um jeito novo de vender, de atender, de entregar, porque precisa e, cada vez mais, porque quer.

Empreender deixou de ser um lugar social e virou uma atitude. Não é sobre quem já tem. É sobre quem corre atrás do que ainda não tem.

A CLT já não tem o mesmo peso

Para muita gente, o dia de trabalho começa bem antes do expediente. Começa no ponto de ônibus às cinco da manhã, segue em duas ou três conduções lotadas e termina em casa já de noite, com quatro horas a menos de vida. No meio disso, há o chefe que grita, o assédio que ninguém denuncia por medo de perder a vaga, o salário que mal fecha o mês e a promoção que nunca chega, ou chega tão devagar que já não muda nada.

A carteira assinada garante direitos, e isso importa. Mas não garante dignidade no trato, nem tempo com os filhos, nem a sensação de que o esforço está construindo alguma coisa. Por isso tanta gente troca esse roteiro pela incerteza do trabalho autônomo. O ganho oscila e a proteção ainda é frágil, mas o tempo passa a ser dela, as decisões também, e cada cliente conquistado é um passo em direção a um sonho que tem o seu nome. A vida não fica mais fácil. Ela passa a ter dono.

Um país que já empreende

O Brasil avançou muito. O MEI levou CNPJ, nota fiscal e previdência a milhões de pessoas que trabalhavam no escuro. O Supersimples reduziu a burocracia e o peso dos impostos para quem é pequeno. Esses avanços ajudam a explicar o que mostrou a pesquisa GEM 2025, feita no Brasil pelo Sebrae com a Anegepe: ter o próprio negócio virou o segundo maior sonho do brasileiro, citado por 40% da população adulta, atrás apenas da casa própria. Em 2017, eram 18%.

E o sonho vem acompanhado de intenção. São 42,5 milhões de adultos que querem abrir um negócio nos próximos três anos. Entre os que empreenderam em 2025, 58% disseram ter feito isso por oportunidade, e não por falta de opção. E 69% dos empreendedores apontam a construção de patrimônio ou uma renda maior como motivação.

O desafio agora é acompanhar esse movimento. Isso significa uma proteção que siga a pessoa, e não o vínculo, e crédito que enxergue quem fatura pelo Pix. Significa também formação em gestão perto de onde se vive, uma transição tributária simples para o pequeno e caminhos para que quem começou sozinho possa crescer, contratar e prosperar.

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O Brasil já é um país de empreendedores. O próximo passo é ser, também, um país desenhado para eles.

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