Artrose não é sentença de imobilidade
Perder peso não regenera uma cartilagem já desgastada, mas pode reduzir bastante a sobrecarga e melhorar a capacidade de movimento
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SIGA NOQuando um paciente recebe o diagnóstico de artrose, é comum associar a palavra a desgaste, envelhecimento e perda progressiva de movimento. Para muita gente, o diagnóstico soa quase como uma sentença: daqui para frente a tendência seria sentir mais dor, andar menos e abandonar atividades físicas. Essa visão ainda é muito presente, mas está longe de representar toda a realidade.
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Artrose é uma doença degenerativa da articulação. Pode envolver cartilagem, osso, membrana sinovial e estruturas ao redor. Ela é comum com o envelhecimento, mas não aparece da mesma forma em todas as pessoas. Há pacientes com alterações importantes nos exames e pouca dor. Outros têm imagens menos chamativas e grande limitação. Por isso, o tratamento não pode ser baseado apenas no raio X.
O primeiro ponto importante seja abandonar a ideia de que movimento “gasta” a articulação. Esse medo ainda afasta muitos pacientes da atividade física. A pessoa recebe o diagnóstico, sente dor e passa a poupar cada vez mais o membro. Caminha menos, deixa de fazer academia, evita escadas e reduz atividades que antes faziam parte da rotina.
O problema é que essa estratégia costuma cobrar um preço alto. Quanto menos a pessoa se movimenta, mais perde força muscular, equilíbrio e condicionamento. A articulação passa a ter menos proteção. Atividades simples ficam mais difíceis e a sensação de incapacidade aumenta. Forma-se um ciclo em que a dor leva ao sedentarismo e o sedentarismo piora ainda mais a função.
Movimento bem orientado costuma fazer parte do tratamento da artrose. Fortalecimento muscular ajuda a estabilizar articulações e distribuir melhor a carga. Exercícios de mobilidade evitam perda excessiva de movimento. Atividades aeróbicas melhoram condicionamento, peso corporal e saúde geral. O segredo não é simplesmente “fazer exercício”, mas encontrar o tipo e a intensidade adequados para cada paciente.
Isso vale especialmente para joelho e quadril, mas também para pé e tornozelo. Uma pessoa com artrose do tornozelo, por exemplo, pode ter dificuldade em caminhar longas distâncias, subir ladeiras ou permanecer muito tempo em pé. Em vez de simplesmente recomendar repouso, é possível trabalhar força, mobilidade das articulações vizinhas, adaptação de calçado, controle do peso e mudança de algumas atividades.
O peso corporal merece atenção especial. O excesso de peso aumenta a carga sobre articulações dos membros inferiores e também está associado a processos inflamatórios que podem piorar sintomas. Perder peso não regenera uma cartilagem já desgastada, mas pode reduzir bastante a sobrecarga e melhorar a capacidade de movimento. Em alguns pacientes, essa mudança faz diferença maior do que qualquer tratamento isolado.
Outra ideia que precisa ser revista é a de que todo paciente com artrose vai precisar de cirurgia. Não vai. Muitas pessoas convivem durante anos com a doença mantendo boa função com tratamento conservador. Fisioterapia, fortalecimento, ajuste de atividades, medicamentos em períodos de crise e algumas intervenções específicas podem permitir vida ativa por bastante tempo.
Infiltrações também podem ter espaço, mas não devem ser tratadas como solução universal. Dependendo da articulação e do quadro clínico, podem ajudar a controlar sintomas e facilitar a reabilitação. O erro é imaginar que uma injeção substitui todo o restante. Se o paciente continua fraco, sedentário e sobrecarregando a articulação, o benefício tende a ser limitado.
Quando a cirurgia se torna necessária, isso também não deve ser encarado como fracasso. Em artroses avançadas, com dor importante e perda de qualidade de vida apesar de tratamento adequado, procedimentos cirúrgicos podem devolver função. Artroplastias, artrodeses, osteotomias e outras técnicas têm indicações específicas. A decisão depende da articulação, idade, demanda funcional e objetivo de cada paciente.
Um ponto decisivo é tratar o paciente, e não o exame. Existem pessoas com radiografias muito alteradas que continuam caminhando, viajando e praticando exercícios. Se a função é boa e a dor é controlável, nem sempre faz sentido propor intervenções agressivas. Da mesma forma, um paciente muito limitado merece atenção mesmo que o exame não pareça tão impressionante.
A expectativa também precisa ser realista. O objetivo do tratamento nem sempre será transformar uma articulação com artrose em uma articulação “nova”. Muitas vezes, a meta é reduzir dor, melhorar movimento, manter independência e permitir que o paciente continue fazendo aquilo que importa para ele. Para alguém, isso significa voltar a caminhar no parque. Para outro, conseguir trabalhar sem dor. Para outro, continuar praticando esporte.
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Envelhecer com alguma alteração articular é comum. Envelhecer parado não precisa ser. A presença de artrose não significa que a pessoa deva abandonar atividade física ou aceitar progressivamente a perda de função. Em muitos casos, acontece justamente o contrário: quanto melhor a capacidade muscular e funcional, melhor o paciente convive com a doença.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.