Durante décadas, a ortopedia construiu sua identidade em torno da ação. Corrigir deformidades, reconstruir ligamentos, substituir articulações, estabilizar fraturas. A imagem do bom ortopedista sempre esteve associada à habilidade técnica, à destreza cirúrgica, à capacidade de “resolver” o problema de forma objetiva e definitiva. Em muitos aspectos, isso segue verdadeiro. A cirurgia continua sendo um pilar essencial da especialidade. Mas algo mudou de forma silenciosa e profunda. Em 2026, talvez o maior sinal de maturidade clínica não esteja em saber quando operar, mas em saber quando não operar.

Essa decisão não aparece em fotos, não rende vídeos impactantes nem costuma ser celebrada em congressos. Não gera estatística de produtividade, nem alimenta a narrativa do médico solucionador. Pelo contrário. Decidir não operar exige um tipo diferente de competência. Exige conhecimento acumulado, segurança intelectual, capacidade de lidar com incerteza e, acima de tudo, coragem clínica.

Existe uma pressão constante para agir. O paciente chega esperando uma solução. A família espera uma resposta objetiva. O sistema de saúde, público ou privado, frequentemente valoriza procedimentos. A própria formação médica ainda carrega a ideia de que intervir é sinônimo de tratar. Nesse contexto, optar pela conduta conservadora muitas vezes é interpretado como hesitação, insegurança ou até omissão. Mas essa leitura é superficial e perigosa.

A ortopedia moderna lida com um paradoxo. Nunca tivemos tanta tecnologia diagnóstica disponível, e nunca foi tão difícil decidir o que fazer com ela. Ressonâncias magnéticas detalhadas revelam alterações em praticamente todas as articulações de pacientes a partir de certa idade. Degenerações, fissuras, edemas ósseos, sinais inflamatórios, achados que aparecem mesmo em pessoas assintomáticas. O laudo descreve, o paciente lê, a ansiedade cresce. A expectativa de correção imediata se instala.

Mas a medicina não trata laudos. Trata pessoas.

Decidir não operar exige tempo. Exige explicar, repetir, alinhar expectativas. Exige traduzir a linguagem técnica em algo compreensível. Em um consultório cada vez mais pressionado por agendas cheias e decisões rápidas, esse tempo virou luxo. E talvez por isso esteja se tornando tão raro.

Toda cirurgia carrega risco. Mesmo a mais simples. Mesmo a chamada cirurgia minimamente invasiva. Risco de complicações, risco de falha, risco de dor persistente, risco de frustração. Em um cenário no qual os pacientes estão mais ativos, mais informados e mais exigentes, as consequências de uma indicação inadequada são amplificadas. O problema não é apenas a complicação objetiva. É o impacto subjetivo de um resultado que não corresponde à expectativa criada.

Muitas falhas cirúrgicas não são falhas técnicas. São falhas de indicação.

O bisturi não corrige dor de origem central. A prótese não resolve o conflito emocional com o envelhecimento. A reconstrução ligamentar não compensa a ausência de reabilitação adequada. Operar nesses contextos não apenas falha, como cria novos problemas. Dor crônica, insatisfação, perda de confiança, judicialização. Tudo isso poderia ser evitado com uma decisão mais cuidadosa lá atrás.

Dizer “não” é desconfortável. Especialmente quando o paciente chega decidido a operar. Quando já pesquisou técnicas, comparou cirurgiões, assistiu vídeos, leu relatos. A consulta, nesses casos, não começa do zero. Começa no meio de uma narrativa já construída. Desconstruí-la exige habilidade comunicacional que nem sempre é ensinada na formação médica.

Explicar que nem toda lesão precisa ser corrigida cirurgicamente soa, para muitos pacientes, como desistência. Explicar que o tempo, a reabilitação e a adaptação fazem parte do tratamento soa como falta de solução. Mas a verdade é que proteger o paciente de uma cirurgia desnecessária é um dos atos mais éticos e responsáveis da prática médica.

A ortopedia de 2026 começa a reconhecer que o verdadeiro ato médico de alta complexidade não está apenas na execução técnica, mas na tomada de decisão. Decidir quem se beneficia de uma cirurgia, quem não se beneficia e quem pode ser prejudicado por ela é uma habilidade sofisticada. Não se aprende em curso rápido. Não se adquire apenas com volume cirúrgico. Vem com experiência, reflexão e humildade.

Essa mudança de paradigma não é simples. Vai contra incentivos econômicos, contra pressões culturais e contra a própria identidade histórica da especialidade. Mas é inevitável. À medida que a população envelhece, que os pacientes permanecem ativos por mais tempo e que a informação circula de forma desordenada, a responsabilidade do médico cresce.

Em um mundo cada vez mais tecnológico, a decisão clínica ganha ainda mais valor. Saber operar continuará sendo essencial. Mas saber quando não operar será o verdadeiro diferencial. Porque essa decisão exige ciência, experiência e humanidade. E porque, no fim das contas, cuidar bem nem sempre significa fazer mais. Muitas vezes, significa saber parar.

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