O sequestro do ditador Nicolás Maduro pelas forças de operações especiais dos Estados Unidos, apoiadas por forte aparato aéreo, com aviões de ataque e drones pilotados remotamente, promove grave ruptura geopolítica. É um sério retrocesso político e jurídico e não tem precedentes. Não há virtude na captura à força de um ditador, violando a soberania territorial do povo venezuelano. A ação de Trump foi ilegal, atropelou o direito internacional e a lei americana que exige autorização do Congresso para esse tipo de ação.

Não há ditaduras morais. Toda ditadura acaba cedendo à corrupção, além de praticar uma série de crimes ao perseguir, prender e torturar opositores. Maduro deveria, contudo, ser julgado pelas leis venezuelanas nas cortes do país, em um processo autônomo de redemocratização.

Não houve e pode não haver mudança de regime. Apenas a extração ilegal de um governante aboletado ilegalmente no poder para ser julgado em Nova York. Política não é matemática. Uma ação ilegal contra um governo ilegal não leva a resultado legal, como dois negativos sempre geram resultado positivo. Nem todas as revoluções de libertação nacional produziram governos legais e democráticos em seguida.

Trump exibiu toda a força de seu narcisismo supremacista. Disse que os EUA governarão a Venezuela até uma “transição segura, apropriada e criteriosa”. Ele definirá o que é uma transição segura, o que é apropriado e que critérios a transição deverá seguir. Uma tutela, com administração autoritária.

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Não há precedente histórico na América Latina de intervenções militares americanas com ocupação e tutela dos países, depois da Segunda Guerra. No período de entre-guerras houve algumas operações na América Central e no Caribe. Em 1961, a tentativa de invasão de Cuba na Baía dos Porcos por uma brigada de refugiados cubanos foi um fiasco. Foi derrotada pelas tropas de Fidel Castro. Os anos 1960 foram marcados por amplo apoio a ditaduras de direita, com ações da CIA no treinamento de torturadores, doações de equipamentos e dinheiro.

Com o fim da Guerra Fria, as intervenções americanas foram interrompidas até dezembro de 1989, quando os EUA invadiram o Panamá, para depor e sequestrar Manuel Noriega. Foi a última invasão clássica imperialista. Os EUA passaram a exercer influência e poder na América Latina por meio de pressões políticas, poder econômico e ação ideológica.

Operações como esta nunca ocorreram na América do Sul até esse ataque à Venezuela. Trump invadiu território de um país sul-americano, fato inédito. Recorreu à Doutrina Monroe, criada no governo de James Monroe, em 1823, para evitar a recolonização europeia nas Américas. Ele clonou o Corolário Roosevelt, de 1904 da doutrina que estabelecia os Estados Unidos como “polícia do hemisfério ocidental”. Foi disso que seu vice Vance alertou a Europa, recentemente, ao declarar, com toda sua arrogância supremacista, que “há um novo xerife no pedaço”. Isto é, nas Américas seu país exercerá a soberania com a arma na mão.

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Não está claro como será a administração neocolonial da Venezuela. Houve a menção de que a transição poderia se dar com a vice Delcy Rodríguez, que faria o que eles querem. Há dúvidas sobre isso. Se for verdade, seria a manutenção do governo ilegal, como títere do poder americano.

Trump descartou a participação de Maria Corina Machado, líder da oposição. Logo, não apoiaria Edmundo González, que teria ganho as eleições de 2024, fraudadas por Maduro. A vice, no poder via fraude, não pode exercer a presidência, pela Constituição venezuelana, por mais de seis meses. Não há sinais de breve retorno à legalidade. E há, ainda, o risco de “uma segunda onda” invasora, como Trump anunciou. Nenhuma intervenção dos EUA levou à democracia, lembrem Iraque, Líbia, Afeganistão.

A violência dos EUA transcende a Venezuela. Todos os governos legalmente eleitos da América Latina estão sob risco. O interesse da ocupação vai além do petróleo e não é a democracia que interessa. Trump é um autocrata. Tem interesses econômicos e exige lealdade absoluta. Quer mostrar que seu país é hegemônico e não admite contestações. Como também não tolera a oposição interna. Quando os críticos são não-americanos, manda prender, deportar, anula vistos e impede o ingresso no país.

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O objetivo não é nobre. É pura demonstração de poder. Uma perigosa mistura da visão colonialista à imperialista. A versão Trump do Corolário Roosevelt enterra a soberania dos países do Hemisfério Ocidental. Só fica a hegemonia americana.

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