Quando foi que a magreza se tornou uma virtude? A mais alta conquista que um indivíduo pode almejar?
Ser magro hoje virou sinônimo de ter sucesso, de ter vencido as adversidades, superado problemas e frustrações. O mais magro – e a que preço? – é de fato o mais feliz e o mais saudável?
Este admirável mundo novo em que vivemos tem seus modismos. Como numa pandemia, se espalha rapidamente e na maior parte das vezes sem critério.
Há uma piada de humor ácido em que duas amigas invejosas falam de uma terceira. A primeira conta que tudo tinha acontecido com a outra: traída pelo marido, ficou pobre, teve um problema de saúde. A segunda retruca: “Está magra?”. A primeira responde: “Sim!”. A resposta é rápida: “Que ódio!”.
Impossível não lembrar dessa história com a onda das canetas emagrecedoras. Já escrevi sobre isso neste espaço: a medicação orientada é importante para tratamento de obesidade, diabetes, mas há distorções.
Todo mundo sabe o que tem que ser feito para emagrecer. Dietas vão, dietas vem, mas a fórmula segue a mesma, comer menos – sem passar fome – e se dedicar à atividade física. “Corpo são, mente sã” é uma frase já com dois mil anos.
Hoje encontramos uma pessoa. Daqui a um mês, ela surge magra. Magreza se conquista com esforço e tempo. O famoso “efeito sanfona” não é saudável e tomar uma medicação para sempre também não. O “desmame das canetas” está sendo trabalhado.
As canetas impactaram no movimento dos restaurantes. As pessoas estão com medo da comida e querendo porções pequenas. Pequenas porções são ótimas, mas nunca se jogou fora tanta comida bem-feita.
O imediatismo em emagrecer revela o nível de ansiedade. Segundo pesquisas, o brasileiro é um dos povos mais ansiosos do mundo. Compreensível. Aqui vivemos numa montanha-russa. Percebo isso nos supermercados. Parece uma olimpíada: a pessoa estaciona com pressa, sai do carro correndo – se pudesse saltava obstáculos –, às vezes anda rapidamente lá dentro como se estivesse atrasada para um evento importante – maratona – e na hora em que chega ao caixa quer ser atendido imediatamente – salto com vara – enquanto o cliente da frente está pagando.
Já brinquei com uma caixa uma vez que, além dos chocolates, balas, cigarros que ficam próximos ao caixa, deveriam ter um ansiolítico também.
Uma vez estava terminando de organizar as minhas compras e chegou uma cliente falando alto com a sua filha sobre a cachorrinha que ela havia deixado dentro do carro ao lado de um frango assado (!). Foi do medo de que ela comesse o frango até a certeza de que ela estava comendo, e tudo isso durou um minuto e meio.
Os manobristas me conhecem e relatam agressões diárias que recebem, sempre com a desculpa do “estou com pressa”. Calma pessoal! Fazer compras, escolher produtos, preparar o alimento, tudo isso é uma benção e é para ser fonte de prazer. O mundo não vai acabar enquanto alguém passa o seu cartão de crédito.
Talvez a revisão da pressa em emagrecer melhore o “blackout” que vem com a perda do prazer de comer e de apreciar o alimento que a medicação provoca.
Cozinhar é desacelerar: picar, cortar, abrir embalagens. Até pratos rápidos têm o seu tempo e os que demoram são um ótimo exercício de paciência. O resultado vale a pena.
Não ver comida com culpa é importante. Uma refeição feita com calma e com a atenção não dividida por constantes olhadas no celular e em boa companhia é uma das maiores alegrias da vida. É benéfico para a saúde mental e para a longevidade.
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