Muita gente não conhece BH. E vai passar a vida sem conhecer. Mas há belo-horizontinos que não conhecem também.
Me lembro quando assisti a uma montagem de “Esperando Godot” no teatro Francisco Nunes com Eva Wilma e Lélia Abramo. Comentei com um amigo depois, na frente da irmã dele, que era mais velha que nós. Ela ficou revoltada, culpando o provincianismo da cidade por ter perdido a peça. Mas não se implicou na sua distração em checar a programação.
Uma vez numa academia (de treino, não na universidade), a TV estava ligada no programa de Ana Maria Braga (aliás, todas estavam, ela era onipresente naquela época) e vários correspondentes do Brasil todo entraram ao vivo para falar da repercussão de uma notícia. Quando chegou a nossa vez, ela soltou um “Eh, Belzonte!”, como se estivesse tocando uma boiada e falando com a roça.
Não tenho nada contra a roça, muito pelo contrário. Paulistano vai para o haras ou para o litoral norte, carioca vai para Angra e o belo-horizontino vai – e ama – ir para a roça. Acho sensacional.
Mas não gosto quando chamam BH de roça iluminada. A cidade tem de fato um quê provinciano. É engraçado dizer que, numa cidade de quase três milhões de habitantes, “todo mundo se conhece”. Em certas regiões da cidade é um pouco verdade. No final das contas, alguém conhece alguém que é primo de alguém ou que estudou no mesmo colégio.
Carlos Drummond de Andrade escreveu em seu belo poema “Triste Horizonte”, protestando contra a mineração na Serra do Curral (adoro, só BH tem uma serra com esse nome), que a cidade não era provinciana como as outras, era uma de “carnes róseas pesseguíneas”, “lugar para ler os clássicos e rir do Rio e de SP, tão prafrentex as duas, e nós aqui macios e amanseados na fresca brisa irônica”.
Em BH, ainda se pode almoçar em casa quando as distâncias permitem e quando faz parte da rotina familiar. Mas uma roça iluminada não tem uma Orquestra Filarmônica e uma Sinfônica, diversos teatros, livrarias, clubes de jazz e restaurantes com quase todas as especialidades do mundo.
É verdade que, no caminho para o aeroporto, placas na estrada indicando Parque do Sumidouro, Confins e Conceição do Mato Dentro, dão a sensação para quem vem de fora que vai desaparecer para sempre, que nunca mais será encontrado.
A frase “Bem-vindos a Confins” que ouvimos no avião chega a ser engraçada: o aeroporto é longe, mas com esse nome parece ainda mais.
Se os belo-horizontinos que criticam a cidade fizessem turismo por aqui, como fazem quando viajam, iriam adorar e redescobrir BH.
Trabalhei num restaurante em Paris uma vez, tive uma vida “local”. Prefiro ser turista, chegar e curtir. Saía cedo e voltava tarde e cansado. Ou seja, tanto faz se era Paris, a vontade era no fim do dia tomar um banho, comer alguma coisa, ficar em casa e dormir cedo.
O cineasta Wim Wenders falou que sempre pergunta a um local onde ele deve ir. Se a pessoa responde “vire à esquerda”, ele vira à direita. Para descobrir coisas novas.
Não tenho nenhum problema em ser turista, esses lugares “onde só vai gente do lugar” são às vezes muito chatos, nem sempre um local tem bom gosto. Muitas vezes o tão mal falado turista conhece melhor a cidade do que os que lá nasceram.
No mês passado, vi Rembrandt na Casa Fiat de Cultura, depois o Yoshitaka Amano no CCBB, almoçamos muito bem, depois de noite tínhamos um show e depois saímos para comer e beber alguma coisa. Poderia ser Nova York, mas foi em BH.
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Turistar em BH é ótimo. Recomendo.
