Passado o turbilhão das campanhas eleitorais, o resultado da disputa entre os lados, como se quer em uma democracia, é indiscutível. Os candidatos se declararam democratas e isso requer uma postura respeitosa, mesmo que no calor da hora as reações possam ser extremadas. Assim deve ser, venceu o mais votado, o povo escolheu.


Cabe a nós, brava gente brasileira, honrar a disputa, pois, entre as Américas, somos poucos que ainda resistem aos avanços da extrema-direita. Cabe agora respeitar as diferenças inevitáveis na vida. Não podemos jamais desprezar que o outro existe e, de fato, é outro.


A psicanálise tem como primeira e única regra, que chamamos regra de ouro, a associação livre. Ela é anunciada ao cliente na primeira entrevista. Deverá falar o mais livremente possível sobre tudo que lhe vem à mente, sem censura ou vergonha. Mesmo que seja contrário ao que lhe agradaria e contrarie valores internalizados.


A associação livre, como diz a expressão, só é possível em um ambiente de liberdade, segurança e respeito. Portanto, democrático.


O desejo pode estar em contradição com a moralidade, o que não quer dizer que todo ele deva ser realizado, ou mesmo imposto como condição da cura, a não ser pela máxima decisão do próprio paciente.


Ele deverá conduzir suas escolhas atendendo aos desejos possíveis e abrindo mão dos impossíveis, porque alguns são. Por exemplo, o ódio, o desejo de destruir algo ou alguém que nos é insuportável, que nos tenha ofendido, que nos seja contrário. Por exemplo, o feminicídio. É um crime que tem sido insuportavelmente frequente. Um desatino passional e um desacato à lei, nossa proteção simbólica.


Os desejos antissociais, mesmo que reprimidos pela educação, permanecem ativos no inconsciente. Caso não conheçam limites, vão contra a civilidade, causando caos e grandes prejuízos. E é das mentes criminosas, perversas, que não conheceram limites, que aconteceram a escravidão, inquisição, nazismo, fascismo, a repressão às mulheres, que não tinham direitos a estudos e nem mesmo a expressar seus sentimentos e pensamentos. A intolerância religiosa e grandes crueldades da história da humanidade etc., por aí vamos, com trágicas guerras recentes no mundo.


Não queremos retornar a barbaridades como essas e é a lei que nos protege do desvario. Por concordarmos com o pacto social, que é a lei simbólica necessária para impedir o abuso do mais forte sobre o mais fraco, garantindo direitos e punindo os infratores com a força da lei. E a lei é e deve ser aquilo que norteia e pacifica uma sociedade civilizada.


Na psicanálise, as associações livres e as manifestações do inconsciente, como sonhos, atos falhos, lapsos de linguagem e outros nem sempre coincidem com nossas vontades, mas ali estão, claras e cristalinas verdades reveladas do que até então nos era desconhecido, ocultado pela própria censura do Eu, a racionalidade. E, muitas vezes, nossas reações são antissociais, mesmo assim, é preciso contenções, pelo risco de cair no pior. Violência, contendas entre amigos, irmãos e queridos.

 

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Assim, as análises nos conduzem nem sempre ao que nos agrada nem ao que queremos, mas nos permitem acordar para o que diz esse inconsciente, para que nos viremos melhor com nossos sintomas e sentimentos, o que nos conduz a melhores saídas, pela palavra. A vitória da democracia deve ser comemorada como confirmação de um laço social, do respeito à diferença e da pulsão de vida contra o medo.

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