Algumas linhas da psicologia, como a clínica e a aprendizagem, trabalham com a noção de desenvolvimento. A intersecção entre elas visa ao processo contínuo de maturação física, cognitiva, emocional e social, orientando a prática pedagógica para que o ensino respeite o ritmo de cada faixa etária e as interações sociais do indivíduo.

Espera-se que uma criança acompanhe esse ritmo. As variações e desvios detectam o atraso, a superdotação e outras variações que constituem motivo de indicação para tratamento, com vistas à adequação do sujeito aos ideais cognitivos, físicos e psicológicos esperados em cada faixa etária.

A teoria do desenvolvimento visa não apenas ao aspecto intelectual. Vai além, quase mirando em um protótipo que, afinal, deveria se aproximar de uma insustentável bela alma. A meta é elevada e de dimensão plena, absoluta e radical, cujos resultados nem sempre podem ser alcançados conforme o esperado.

Um exemplo é o construtivismo de Jean Piaget, que considera o desenvolvimento um movimento que busca alcançar o estado de equilíbrio. Esse processo foi chamado por Piaget de equilibração.

A inteligência é entendida por Piaget como adaptação do indivíduo e de suas estruturas cognitivas ao meio social. A adaptação é o equilíbrio entre sujeito e meio, através dos processos de assimilação e acomodação.

Assimilação é o processo cognitivo pelo qual o sujeito compreende uma nova informação com base nos conhecimentos que já possui. A acomodação acontece quando o sujeito não consegue assimilar nova informação e, diante disso, modifica suas estruturas mentais. Após a mudança causada pela acomodação, o sujeito consegue se adaptar àquela nova informação.

A psicanálise se distingue dessa metodologia de uma maneira singular. Afasta-se do objetivo da adaptação, enquadramento, conformação a quaisquer ideais. Nos pautamos em uma estrutura psíquica que não se pode modificar pelo processo intelectual ou do pensamento.

A experiência analítica não mira na identificação com os ideais de um educador, objetivo contrário ao do analista, que nunca deve propor qualquer resultado esperado além do que é mais singular de cada um. Tampouco pode ocupar lugar de mestria, dirigindo o paciente para onde queira, nem se colocar pessoalmente como exemplo. Nem mesmo na transmissão de conhecimento que se aproxime dos ideais da cultura. Ao contrário.

Trabalhamos com os conteúdos inconscientes que surgem durante as sessões e nos permitem escutar onde o sintoma do sujeito interfere em seus processos. Cada sujeito é singular e seu sintoma é o modo como ele se vira com suas experiências afetivas inaugurais e as marcas deixadas pelo romance familiar.

As crianças são altamente sensíveis aos problemas familiares. Antenadas aos pais, percebem quando as coisas não andam bem e passam a se responsabilizar, trabalhando pela proteção dos pais e invertendo a situação. Serão elas os cuidadores – e não os pais.

Se há problemas em casa, há sofrimento distribuído entre angústia, inibição e sintomas que causam a dispersão, responsável pela dificuldade de aprendizagem, introversão, comportamentos antissociais, repetições indesejáveis de comportamento, atrasos e paralisações. Nossa atenção visa à estrutura psíquica que compreende o inconsciente, que revela conteúdos causadores de mal-estar.

Somos seres de linguagem e passamos à cultura pela assimilação. Não apenas por aprender palavras, mas pela voz afetiva que nos acolheu e nos afeta, cavando marcas definitivas.

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Na análise, não procuramos o sentido, o que a tornaria interminável. Tampouco a adaptação aos ideais da cultura. Buscamos a palavra material que nos é dita. Ela tem direito e avesso, revelando o sujeito. Palavra que é matéria de poesia e matéria de cura. Escutamos nas entrelinhas a dor que afeta o desempenho.

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