Vivemos em busca de satisfação de todas as nossas vontades. Um movimento constante pelo gozo pleno, supostamente encontrado em todo tipo de consumo. No uso e posse de produtos indispensáveis, utilitários, e não apenas úteis, mas principalmente num mercado prenhe de objetos fúteis, caros e luxuosos para desfrute. E eles clamam por nós, prometem e oferecem felicidade.
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A ciência trabalha a serviço do capitalismo, o mestre antigo hoje depende do capital para lançar no mercado suas invenções e descobertas e uma infinidade de produtos. São medicamentos, produtos de beleza, invenções e instrumentos, progressos da robótica, tecnologia de última geração, grandes avanços de conhecimento em todos os campos e, ainda, a inteligência artificial à disposição de consultas e informações instantâneas. De fato, nos maravilhamos com tudo que surge e que a civilização constrói.
Porém, quando a ciência se submete à lógica e aos interesses do capitalismo em busca do lucro, aliados e reforçados pela indústria da propaganda, jogam no mercado objetos que extrapolam a utilidade, servindo para a satisfação de um gozo excessivo, que se quer completo, ignorando limites necessários para uma sociedade justa e provocando o apetite de consumo, o que acompanha a insatisfação que é condição do desejo humano. Fazem um belo casal, mas não podemos pretender que sejam “felizes para sempre”.
Transformamos nosso corpo a nosso bel-prazer em um frenesi estético que nos permite ter o rosto, o corpo, o gênero ambicionado, e que o mercado aponta como possível e desejável. O dinheiro compra quase tudo, propõe ultrapassar limites impensáveis, excluindo obstáculos ou impossíveis. Nenhuma desarmonia é aceita e a satisfação do gozo pleno é ansiada e prometida. E até exigida!
Felizmente, eu diria, não realizamos plenamente essas pretensões. Quando se realiza um gozo, outra demanda virá, deixando sempre uma ânsia, uma vontade ainda incompleta a ser realizada, o que, afinal, casa muito bem com a pretensão capitalista de cada dia fazer rodar mais e mais dinheiro no mercado, para lucro de poucos, nunca satisfeitos também, em detrimento da miséria de muitos. Uma busca desenfreada de tudo, muito e mais ainda.
A questão é que o desejo surge da falta, não havendo falta, não há porque desejar e, sem desejo, surgem a tristeza e a depressão. Outro ponto é que o real é implacável e sempre, invariavelmente, descompleta ideais de harmonia. Ideais aspiram à perfeição que não cabe na realidade, embora não nos cansemos de tentar.
Nós somos seres pulsionais, diferentes dos animais, dotados de instinto que encontra o objeto adequado para as necessidades. Nós, além das necessidades, queremos gozo. Um gozo ilimitado, que desconhece não haver objeto adequado à pulsão.
Pulsão que brota entre o psíquico e o somático, mão invisível, que busca objeto, e, embora alivie a pressão por satisfação, não é perene, e retorna de mão vazia, por não incorporar esse objeto.
E a repetição desse movimento é incessante e incansável, até que se entenda que essa harmonia é impossível e inviável e nos contentemos com o possível. Que da insatisfação migremos à incompletude: o desejo é falta e precisamos dele. Não há ciência e capitalismo que deem conta de promover um casamento perfeito entre as pulsões e seu objeto, homem e mulher, amado e amante, consumidor e objeto.
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Esse ato em busca da satisfação subjetiva será infinito por não se tratar de uma relação complementar que faça de dois, um. A sublimação é o termo que nos permite inscrever a conjunção da base subjetiva, na medida em que a repetição é a base estrutural dessa dimensão essencial que permanece e carece ser compreendida: maior obscuridade e impossibilidade se chama satisfação.
