Semana passada, escrevi sobre o psicanalista italiano Domenico Cosenza, que lançou o livro “Entre o cair e o despertar: um fim de análise”, na livraria e editora Scriptum. Domenico colabora com suas publicações sobre a clínica focada no excesso em um interessante projeto na Universidade Federal de Minas Gerais: Janela da Escuta.

 


Esse projeto nos é apresentado na coletânea “Clínica do resto, clínica do excesso, clínica de borda: uma experiência do janela da escuta” (Scriptum, 2026). São testemunhos de casos clínicos atendidos pelos membros da equipe, autores que se debruçam nessa janela da clínica do excesso com adolescentes.


Vivemos imersos numa sociedade marcada pelo enlace dos discursos da ciência e do capitalismo, pautados pela recusa à perda e à impossibilidade, plantando o excesso no horizonte do contemporâneo. E daí a ilusão da possibilidade na inscrição social, sem perda de gozo, sem interdições, como nos aponta Cristiane Grillo.

 


Esse dispositivo, comentado por Cosenza e pautado na clínica do excesso, é uma alternativa ao tratamento padrão, que caracteriza um pouco a contemporaneidade, ou seja, a multiplicação de intervenções específicas, um laboratório que põe em marcha a tentativa de extrair algo da ordem da singularidade.


Anorexia e bulimia

Esse trabalho de escuta realizado na Universidade Federal de Minas Gerais, não podemos deixar de mencionar, foi inaugurado pelo respeitado Dr. Roberto Ferreira de Assis, começou focado principalmente na anorexia e na bulimia e, hoje, está sob a coordenação da psicanalista Cristiane Grillo, que nos apresenta não apenas uma continuidade, mas uma renovação necessária que amplia o escopo do trabalho.

 


O livro abre também uma oportunidade, através dos relatos apresentados, de conhecermos a direção dos tratamentos atuais e seus resultados. Uma clínica que hoje não se pauta na interpretação, mas em atos, cortes e outras intervenções mais afins com os novos sintomas da atualidade.


O relevante projeto contempla adolescentes em situação de risco, não para serem compreendidos, mas escutados. O que faz toda diferença. Dar voz a esse adolescente é criar possibilidades, uma nova cena, visualizada através dessa escuta, janela através da qual resgata a dignidade de um especialista de si mesmo.


Circulação da palavra

Nessa janela da escuta, esse adolescente não deseja ser infantilizado, coisificado, julgado, protocolizado e classificado pela psiquiatria em voga. Por isso, trata-se de um trabalho que convida o adolescente para dar a ele ar e luz, abrindo a janela, lugar da escuta, onde corre a livre circulação da palavra.

 


Oferecer dispositivos de conversação aos jovens das periferias, marginalizados e invisíveis, colher os restos, os resíduos, pois é dessa matéria que surge a verdade que importa para a psicanálise.


O psicanalista vai ao encontro do pequeno, do oculto, do ínfimo, do acidental, nunca do extraordinário. Recolhe pérolas descartadas. Um belo trabalho que honra nossa cidade, quando desaloja o adolescente da marginalidade e, também, o analista da proteção de seu consultório. Passa ele a buscar essas pérolas descartadas pela cidade, desvalorizadas e invisíveis aos olhares daqueles que circulam indiferentes aos que sofrem.

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É um trabalho para os tempos atuais de transbordamento de gozos sem interdições. Tudo é demais! Informação, consumo, diagnósticos, classificações, tratamentos, medicalizações. Um trabalho importante, publicado pela Editora Scriptum na Coleção Interditos, excelente volume, que apresenta à comunidade, não apenas para especialistas, autores e trabalhos relevantes que rolam por aqui, na nossa cidade.

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