Quem já viveu a experiência de estar longe de casa durante uma onda de calor, provavelmente vai se lembrar em detalhes do que estava fazendo. Eu me lembro: fui tomada por uma onda dessas durante uma gravação no Norte de Minas e, anos depois, como se tivesse agendado com o El Niño, marquei presença na semana mais quente da década em Nova York. É bem nítida a memória daqueles dias tórridos, noites quentes com ar parado e a respiração abafada, que deixam a gente sem lugar.

E o El Niño vai trazer essas ondas de volta a partir das próximas semanas. O boletim mais recente do Cemaden, o Centro Nacional de Monitoramento de Desastres, elaborado em conjunto com órgãos climáticos do país, traz um dado que dá a dimensão do que vem pela frente: são esperadas de 3 a 5 ondas de calor para o trimestre de setembro a novembro. É o suficiente para transformar o que seria uma primavera quente num teste real de resiliência para cidades como Belo Horizonte, que já sentem o calor concentrado em bolsões de concreto e pouca sombra.

 

 

Seul, na Coreia do Sul, tem borrifadores de água em espaços públicos para amenizar o calor

Jung Yeon-je/ AFP

A infraestrutura cinza ainda domina a paisagem na maior parte das nossas cidades e deixa pouco espaço para o que seria a solução efetiva: a arborização planejada, espaços verdes, bosques, matas, infraestrutura para lidar com calor e absorver água da chuva. Nos resta correr e tentar as soluções de urgência.

É aí que entram os refúgios climáticos, estruturas criadas em espaços públicos para oferecer proteção durante eventos extremos. Podem ser montadas em espaços abertos, como parques e praças, ou em lugares fechados, como centros comunitários. Os refúgios oferecem sombra, bebedouro, piso permeável para absorver água, em caso de chuva, e, às vezes, aspersores de névoa para resfriamento. E se tornam cada vez mais necessários, à medida que o planeta aquece.

Algumas dessas redes de abrigos climáticos têm resultados positivos mundo afora, enquanto outras acabam não sendo usadas. A pesquisadora da USP e do Centro Basco para Mudanças Climáticas, Ana Terra Amorim Maia, estudou os refúgios climáticos em Barcelona, na Espanha. A cidade é referência mundial nesse modelo e, hoje, tem 409 espaços cadastrados. Bibliotecas, centros culturais, estações de metrô, parques foram adaptados.

 

Barcelona é referência mundial nesse modelo de refúgios contra o calor

Lluis Gene/AFP

Essa política virou infraestrutura pública e, em 2026, foi criada na Espanha a Rede Estadual de Refúgios Climáticos. Em seus artigos, Amorim Maia defende a solução dos refúgios, mas mapeou alguns problemas.

 

Água, sombra e desigualdade: o que Barcelona já aprendeu sobre refúgios climáticos?

 

Nem toda a rede de refúgios climáticos chega a quem mais precisa: uma pesquisa com moradores de um bairro operário da cidade revelou que 81% dos moradores de baixa renda nunca haviam usado um refúgio para se proteger do calor. Um relatório do Greenpeace constatou problemas como o horário de funcionamento insuficiente e o fato de nem todos os abrigos terem acesso facilitado ou gratuito nos prédios públicos.

 

 

""Pesquisa com moradores de um bairro operário de Rosário, na Argentina, revelou que 81% dos moradores de baixa renda nunca haviam usado um refúgio para se proteger do calor""
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Por isso, a cidade de Rosário, na Argentina, importou o modelo espanhol, mas adaptou para a realidade local, implementando abrigos em bairros mais vulneráveis e em áreas abertas, perto de pontos de ônibus e nas praças. A cidade passou de 20 refúgios para 100 distribuídos em espaços públicos e áreas verdes.

 

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Belo Horizonte tem duas unidades-piloto instaladas no hipercentro, na Rua dos Carijós e na Avenida Olegário Maciel. Uma terceira está em implantação no Bairro São Paulo e outra está prevista para a Praça Afonso Arinos. Pelo Plano Local de Ação Climática, os refúgios devem ter água potável, sombreamento, resfriamento por névoa, área de descanso e calçada sem pavimentação.
Ampliar essa rede é urgente, já que a adaptação climática pode salvar vidas.

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