Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Não só em Minas, mas na vasta maioria dos estados brasileiros, foi ouvido o grito das urnas: “Direita, volver!”. Não se trata, entretanto, de desapreço à democracia, muito menos de velado convite ao autoritarismo. Pesquisas recentes de opinião pública revelam ser a democracia um norte político firmado na cabeça dos brasileiros. O recado desse 4 de outubro foi claro: acabou o ciclo assistencialista e está trincado o sistema político baseado em trocas de proteções recíprocas e vantagens pecuniárias (as “boquinhas”).
Fique por dentro das notícias que importam para você!
A reação inicial dos mercados, com forte redução nos juros futuros, alta das ações e queda do dólar, revela como os operadores financeiros enxergam a perspectiva de mudança da gestão econômica na busca de superávits fiscais para deter a evolução explosiva da dívida pública. O resultado das urnas também representa a possibilidade de o Brasil voltar a exercer natural liderança no continente sul-americano. A primeira impressão, portanto, é de que a futura agenda do país vai girar em torno das palavras-chaves da campanha do jovem Bolsonaro: mudança e renovação.
Alguns analistas já esboçam a hipótese de que estas eleições marcarão a virada de um ciclo longo de estagnação relativa do Brasil, de quase meio século (1980 a 2026). A agenda nacional do meio século precedente (1930 a 1980) havia sido pautada por um desenvolvimentismo de centro-direita. Mas aquele ciclo fracassou em 1979, com a crise do petróleo e o endividamento externo. Avançou então a pauta de uma nova esquerda distributivista e assistencial que trouxe de volta um Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1982), um Miguel Arraes em Pernambuco (1986) e os caciques de centro-esquerda do PSDB em São Paulo, enquanto avançava a formação do novo PT em torno de Lula e do movimento sindical. A agenda de resgate da pobreza refletiu a preocupação distributivista, mesmo ao preço de sacrificar a economia produtiva com carga tributária crescente, inflação alta e mais dívidas.
A redação da Constituição de 1988 marca a consolidação de todos os direitos sociais e quase nada para a viabilização produtiva e equilíbrio orçamentário do país. O vermelho passou a dominar o verde-amarelo. E cá estamos, em pleno século 21, após quase cinco décadas de bondades sociais, ainda incapazes de definir quais interesses do cidadão comum estarão no centro das políticas de governo. Um exemplo clássico: uma inflação baixa de fato entrou nessa lista prioritária do cidadão. Porém, o remédio para entregar inflação sob controle são os juros mais altos do planeta, inviabilizando crescimento, endividando o povo e quebrando o país. O ciclo de bondades fora do lugar precisa ser mudado. Políticas eficientes de educação para valer e saúde acessível cumpririam melhor a tarefa de proteção social do que espalhar bolsas e auxílios a esmo. No campo institucional, o hiperativismo judicial precisa ser contido por ampla reforma do Judiciário, a começar pelo Supremo Tribunal. A pauta de reformas é vasta, mas o prazo para implantá-las num futuro governo começa e termina no primeiro ano do mandatário. Ou a mudança acontece em 2027 ou ficará para o cinquentenário da estagnação brasileira em 2030.
O povo percebeu isso faz tempo. Desde 2013 pode-se dizer que o povo está protestando nas ruas. Não rolou. O sistema político nos enrolou. Em 2018 parecia haver chegado, para muitos, a mudança almejada, vestida num gesto de Bolsonaro, a mão em posição de tiro. Não resultou em avanço algum, sequer na prometida área da segurança. Lula retornou, então, como apelo final ao distributivismo estéril, que só fez avançar o endividamento das empresas, do setor rural, das famílias, agravado pela tragédia das bets e, sobretudo, por mais dívida pública e descrédito da Previdência, pelo assalto aos aposentados do INSS. Ao reforçar seu “legado” como pai dos pobres e mãe de banqueiros, Lula agravou a pobreza do Brasil na comparação com qualquer outra nação emergente, à exceção da pauperizada Argentina. Agora, a maioria foi às urnas para dizer “Chega”.
O problema é saber se o grupo que vem por aí compreende o que é construir futuros. Mudar não é fácil. Votar mudanças em 2027, em ritmo acelerado, menos ainda. Se o país mudar pouco e com alto custo político, pode ser pior do que não fazer nada. Para ser claro, em 2019, o Bolsonaro pai tinha boas condições de aprovar um conjunto articulado de medidas de alto impacto. Mas concentrou todas as energias políticas numa única reforma, a da Previdência, errando no ponto nevrálgico da mudança. O tiro saiu engasgado e nova reforma já está na pauta. Mas qual? Bolsonaro Junior tem até melhor ambiente partidário (ver quadro do novo Congresso) com vasta maioria na Câmara e no Senado. Mas terá o tal conjunto de reformas preparado e azeitado para uma votação rápida e consagradora? Ou se perderá no varejo mesquinho das vendetas políticas e acertos de contas familiares?
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Para fechar, de verdade, o ciclo distributivista e capenga associado à era dos 1980 até os dias atuais, a mudança precisa ser de estadista: transformar os cidadãos em Sócios do Futuro – ou seja, criar um capitalismo popular, capaz de deslocar a atual política de ócio remunerado para uma nova lógica de desoneração do trabalho, de ética do empenho pessoal e de construção de poupanças individuais. Quatro grandes acessos ao capital precisam de nova pavimentação: mais Conhecimento e Treinamento, Casa Própria, Poupança pessoal com lastro na riqueza do país e Conservação do patrimônio ambiental. Fazer “Direita, volver” é mais fácil do que comandar um “Brasileiros, marchemos”.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.