Paulo Rabello de Castro
Paulo Rabello De Castro

O "Mão Santa", a mão invisível e a mão boba

Essa aparente contradição do auto-interesse que resulta em vantagem para nossos semelhantes, apesar da despreocupação em "fazer o bem", está no cerne da lógica

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Deixou-nos Oscar Schmidt, lenda do basquete brasileiro, cujas cestas memoráveis o notabilizaram como o “Mão Santa”, apelido que ele rejeitava, pela boa razão – assim argumentava o atleta – de que ninguém nasce “cestinha”, mas essa habilidade ímpar surge com treinamentos incessantes e determinação implacável. Oscar diz em entrevista: “Mão Santa que nada; Mão Treinada”. Pois bem.

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Esse modo de ser e de pensar do lendário Oscar Schmidt, que hoje homenageamos neste espaço dedicado à economia, tem tudo a ver com outra homenagem, desta feita aos 250 anos da obra que inaugurou o pensamento econômico moderno – “A riqueza das nações”, de Adam Smith, publicada em março de 1776 – cuja lição mais comentada é sobre a virtude da mão invisível. Essa figura usada pelo “pai da ciência econômica” ilustra o argumento essencial do livro, que é o bem praticado por quem não visa ao interesse do próximo e, sim, honestamente, ao próprio interesse.


Essa aparente contradição do auto-interesse que resulta em vantagem para nossos semelhantes, apesar da despreocupação em “fazer o bem”, está no cerne da lógica de Adam Smith sobre a construção da riqueza dos povos. É que o trabalho diário de cada um, praticado com dedicação e afinco, na observação de Smith, não resulta apenas na remuneração do trabalhador. Esse trabalho se incorpora à satisfação do consumidor e também gera um valor excedente que será investido no ciclo produtivo seguinte. O trabalhador contribui, portanto, com mais do que pretendia. Essa seria a “mão invisível” de Adam Smith, que atua e entrega até o bem não pretendido pela mão que trabalha.


No depoimento de Oscar Schmidt sobre seu intenso treinamento, fica claro seu objetivo pessoal de, um dia, integrar a seleção brasileira e se tornar sucesso como atleta. Mas o desdobramento desse auto-interesse, dessa atividade toda, resultou numa colheita de alegrias, exemplos de vida, promoção de autoestima coletiva para o país e resultados financeiros para as equipes, infinitamente superiores ao que Oscar imaginara para si. Tudo aconteceu por ele haver acreditado no próprio trabalho e não ter tido receio de encarar durezas e desafios. Imaginemos, no entanto, que nosso Oscar, ou qualquer Oscar, não confiasse tanto no valor do trabalho como construtor de oportunidades. Oscar teria tido uma outra vida, não necessariamente má, porém, com certeza, muito menos rica em todos os sentidos, tanto familiar, como profissional e pessoal, e também, financeira.


Tampouco teria produzido sequer metade das repercussões materiais e simbólicas por ele criadas ao longo de sua longa vida de trabalho. Essa constatação, algo simples de se entender, está na base da ciência desenvolvida por Adam Smith. Para o grande mestre dos economistas , é o trabalho, e apenas ele, o fator gerador de riquezas, seja no plano pessoal, empresarial ou para as nações (o “commonwealth”, ou seja a riqueza comum, de todos).


Nessa perspectiva de que só o trabalho constrói o presente e prepara o futuro, chega a ser chocante a proposição que o atual mandatário do país (cuja contribuição Smith consideraria, largamente, como “trabalho improdutivo”) apresentou neste apagar das fracas luzes de sua gestão, um projeto de alteração constitucional (PEC) que se resume a reduzir a jornada máxima de trabalho e de fixar uma regra mínima de lazer baseada em dois dias consecutivos por semana.


Embora muita gente já tenha empregos dentro dessa regra de trabalho/lazer, o espantoso é o governo do presidente Lula se meter na vida pessoal e laboral dos brasileiros , constrangendo as empresas e empregados a trabalhar “no máximo” cinco dias por semana. A PEC da Redução da Jornada, além de desorganizar diversos segmentos dependentes de escalas de seis dias – como nos setores de transportes, de saúde, de bares e restaurantes e tantos outros serviços – com dramáticos impactos (já calculados) sobre os custos, os preços ao consumidor e sobre o próprio nível do emprego, em horas trabalhadas, nos traz uma mensagem terrivelmente perversa: a do ódio ao trabalho, a glamourização do ócio e a uma falsa noção de que a presença física do trabalhador ou trabalhadora seja sempre mais relevante para a família do que a renda produzida pelo tempo dedicado ao trabalho.


Sob essa ótica, nunca teríamos um Oscar campeão do mundo para festejar, nem seu exemplo para seguir. A mão dele não seria “santa” porque o tempo de treinos duros e quase ininterruptos teriam sido convertidos a vigiar os filhos na pracinha e a empurrar balanço. Não. O Brasil pode mais e merece mais do que um governo empenhado na valorização do fazer nada. Corrigindo: do fazer nada, mas com subsídios das bolsas de governo e por acúmulo de horas, dias e semanas de descanso, remunerados pelas empresas.


Acresce o escândalo maior da República: além de acometido da ideologia do não-trabalho, o Brasil ainda marca passo pelo incessante labor de outra mão invisível, a “mão boba” da desenfreada corrupção ativa e passiva que ronda nossos governos há tanto tempo. O caso Master-Vorcaro-INSS é característico do oposto da lição de Adam Smith: em vez do trabalho, que acumularia mais riqueza para todos, a mão boba segue operando os desvios das verbas públicas para os bolsos particulares, num grande espetáculo de destruição do futuro comum. Se vivo, Smith teria aqui se inspirado para produzir outra obra, talvez com o título de “A Ruína das Nações”.

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Nesse 21 de abril em que o maior de todos os mineiros se insurgiu contra a exploração do imposto (a derrama dos 20%, que hoje passa de 32%) e, por isso, pagou com a vida, enforcado e esquartejado em nome da “estabilidade do poder instituído”, cabe a reflexão sobre que tipo de mineiros e que tipos de Oscar queremos ser para nossos filhos. Seguir Tiradentes ou Vorcaro? Para quem devemos erguer um monumento? A quem conceder um habeas-corpus? Encerro relembrando que o país precisa de muito mais trabalho e de mais algum sacrifício pessoal dos que se arvoram como líderes da democracia.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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