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"Diante de mim se reversavam crianças pequenas cobertas com trapos que me recuso a chamar de roupas"
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Sempre que retorno do continente africano, em especial da África Subsaariana, custo a me situar novamente em casa. O contraste entre nossas vidas e as dos que lutam do lado de lá são gritantes. Temos pobreza no Brasil, bem sei, mas nos locais onde faço trabalho humanitário há miséria extrema e desnutrição severa em níveis alarmantes.
Depois de vivenciar situações deploráveis, aterrizar em um país de oportunidades como o nosso é tanto um bálsamo como um incômodo. Por aqui temos sede de quê? Temos fome de quê? Temos medo de quê? Vou deixar aos leitores as respostas enquanto, de minha parte, tento devolver ao universo o privilégio de aqui viver.
Duas cenas me marcaram muito dessa vez, a primeira no sul de Madagascar e a segunda no Malawi, de onde cheguei há poucos dias. Era domingo quando larguei meus trabalhos nas oficinas de capacitação e profissionalização e fui acompanhar duas jovens médicas. Minha tarefa foi ajudar nos cálculos entre peso e altura das crianças para detectar as que precisavam de fórmula própria para tratar desnutrição. Estava muito frio e o vento cortava. Eu vestia calça grossa, botas, blusa de manga comprida e por cima jaqueta de couro. Na cabeça improvisei uma sacolinha de pano como lenço para proteger meus ouvidos. Ainda assim, tremia.
Diante de mim se reversavam crianças pequenas cobertas com trapos que me recuso a chamar de roupas. Elas também tremiam encolhidas entre seus braços magrelos e empoeirados. Me senti constrangida. Tive vergonha porque conclui que naquela situação eu precisava controlar minha tremura de forma a disfarçá-la, vergonha de pertencer ao lado do mundo que ignora o que acontece ali e contribui para manter tudo como está.
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Fomos embora com o “rabo entre as pernas” levando conosco algumas crianças e suas famílias que, se não fossem socorridas a tempo, logo estariam de luto. Um luto resultado da negligência de todos nós.
A outra cena se repetiu três vezes. De dentro do carro vi, ora na estrada entre uma aldeia e outra e ora nas ruas da cidade, uma pessoa caída no chão convulsionando, provavelmente consequência de dias sem se alimentar. Eram vistas apenas como corpos se debatendo no chão. Apenas mais um. Quando me dei conta, o carro já ia longe, assim como todos os que ali passavam. Deixo aqui uma outra pergunta: o que você faria? Sei que muitos leitores estão formulando respostas cheias de revolta ou soluções variadas. E eu diria: é hora de agir, abandonar o discurso carregado de julgamentos. Isso sim pode fazer a diferença não apenas para um ou outro indivíduo, mas para todos nós.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
