Patrícia Espírito Santo
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Entre um jogo e outro

"Aqui faz frio (…) A maioria das crianças se cobre com trapos, restos de doações que um dia parecem ter sido camisetas"

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Estou em Madagascar, mais precisamente no extremo sul da ilha, cenário de meu último livro 0nde deságua o desengano, da Autêntica Editora. Aqui faz frio, o que é agravado pelo fato de que faltam roupas e cobertores adequados principalmente aos nativos.


Em uma de minhas incursões em aldeias remotas, tremi de frio enquanto auxiliava médicos a pesar e medir crianças. Atmosfera extremamente seca, faltava cobertura vegetal capaz de barrar a ventania ininterrupta que insistia em nos lembrar que ali as condições de vida são extremamente desfavoráveis, principalmente aos que nascem e morrem desprovidos de qualquer privilégio que vá além do nascer e do morrer.


A maioria das crianças se cobre com trapos, restos de doações que um dia parecem ter sido camisetas de tamanho bem maior ou menor que seus corpos em lento e sofrido crescimento.
Aqui nos atualizamos sobre os jogos da Copa do Mundo de futebol pelos amigos e grupos de zap que, nesse quesito, são rápidos. Eu que adoro futebol, e em especial estes jogos, acordo cedo e recebo o boletim.


Com horas de atraso comemoramos ou lamentamos derrotas e avanços, afinal torcemos pelo Brasil, mas também somos simpáticos a outras nacionalidades. Onde a energia solar é suficiente apenas para alimentar nossos celulares e direcionar sinal fraco de internet, o ser humano se nutre principalmente do que tem a oferecer seu semelhante.


Estamos sete horas na frente do horário dos jogos e confesso sofrer menos quando recebo de supetão resultados lamentáveis. Não tenho mais estrutura emocional para acompanhar cada jogada, viver às incertezas (apesar de atleticana). Ando preferindo os fatos concretos que possibilidades incertas.

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Enfrentar in loco os desafios da vida tem sido o motivador de meus dias e pegar o boi (aqui o zebu) pelo chifre nos exige algo que a maioria de nós tem evitado: parar de fingir que a falta de “sorte” do alheio não nos diz respeito e que cada um é o único responsável pela posição que ocupa no mundo.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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