Patrícia Espírito Santo
Patrícia Espírito Santo

São seus olhos

Guardava uma mágoa muito grande daquele "doutor", ao mesmo tempo em que se sentia vingado

Publicidade

Mais lidas

Meu pai tinha um “olho de vidro”. Quando criança, perfurou um dos olhos com uma espécie de arame que manipulava na tentativa de dar vida a um brinquedo. Desde sempre foi muito habilidoso com ferramentas, mas na época faltavam-lhe maturidade e treinamento. Tinha apenas sete anos de idade. Resultado: perdeu a visão e precisou usar tapa-olho por um tempo, até conseguir um “olho de vidro” para substituir.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Apesar de sempre achar bem estranho o olhar de um dos olhos dele, só fiquei sabendo do ocorrido, e de parte da dor que ele envergava, na minha adolescência, quando minha mãe decidiu nos contar a verdade, escondido e sob completo sigilo. Papai tinha vergonha daquela “falta” e entendo o porquê.

Quando assumiu nos contar sua saga, aos filhos já adultos, disse que, mais do que enxergar com apenas um dos olhos, o que mais lhe doía era o que ouviu ao longo dos anos. Nunca conseguiu esquecer, por exemplo, o que lhe disse um médico durante entrevista de emprego logo que ele completou 18 anos: “Você é e sempre será um inválido”.

Guardava uma mágoa muito grande daquele “doutor”, ao mesmo tempo em que se sentia vingado (aliás, passou a vida toda tentando provar que a praga a ele rogada não o enfeitiçaria). “Queria que esse médico me visse hoje, visse do que fui e sou capaz.”

Papai tinha visão apurada para todo e qualquer detalhe. Era capaz de construir com maestria qualquer tipo de peça em um torno, com minúcia e riqueza de detalhe capazes de irritar quem observava. “Nada do que entra nesta oficina sai sem funcionar”, gabava-se sempre que levávamos um ferro de passar roupa, secador de cabelo, liquidificador ou brinquedo de neto para ele consertar.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Pouco antes da pandemia, renovou a carteira de motorista aos 92 anos e apenas um olho “de verdade”. Confesso que torci para que o médico que fosse realizar o exame o reprovasse. “Se o motorista prova que é capaz, não serei eu a reprová-lo”, escutei, calada.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

crianca magoa pai visao

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay