Estávamos sentados na área externa de uma cervejaria em uma cidade do interior dos Estados Unidos aproveitando o clima ameno depois de semanas de muito frio. Eu, meu marido, um de meus filhos, meu genro e a filha deles, minha primeira e única neta (até o momento). Foi quando chegou um rapaz aparentando estar na casa dos 40, sentou-se e disse que ia se apresentar. Olhamos para ele, sem entender muito bem o que se passava, mas abertos a descobrir.
Na hora pensei que fosse um pregador que se via na missão de falar de suas convicções religiosas, já imaginando o que faríamos para nos livrar dele de maneira respeitosa. Enganados percebemos que não. Nos pareceu um homem solitário em busca de conversar com alguém, mudar o assunto de seu cotidiano: acabara de retornar para aquela cidade, Charlotte/Carolina do Norte, onde nascera. Morou 15 anos em Hong Kong e trabalhava no mercado financeiro. Simpático, culto, bom de conversa, pai de um menino de quatro anos. A ausência de uma aliança e na foto da criança, exibida com orgulho, não se via uma mãe ou um companheiro. Ninguém se atreveu a pergunta-lhe o estado civil ou onde o filho estaria.
Durante meia hora a conversa fluiu como acontece entre pessoas completamente desconhecidas: fala-se de tudo um pouco, algumas risadas despretensiosas, até que chegou a hora de irmos. Ele não nos ofereceu nada, não pediu nada, nem sequer amizade virtual. Confesso que minutos depois já não me lembrava seu nome, mas jamais vou me esquecer da impressão que ele nos indicou.
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Ficamos imaginando como é a solidão em grandes centros. Que energia terá sido exigida dele para dar conta de abordar um grupo de desconhecidos, dois jovens e dois maduros, além de uma bebê recém-nascida! Nos pareceu tímido. Olhando-o, a medida que nos afastamos, nos sentimos condoídos e com saudades daqueles tempos em que um forasteiro era tão bem acolhido pelos locais que se via no direito de, ao se sentar, colocar os pés sobre a mesa.
